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Madeira

Há 50 anos, DIÁRIO noticiava que colónia de cagarras nas Selvagens fora "aniquilada"

'Canal Memória' transporta-nos para 28 de Setembro de 1976

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A 28 de Setembro de 1976, o DIÁRIO de Notícias da Madeira dava conta, em reportagem assinada pelo jornalista e fotógrafo Manuel Nicolau, de uma expedição às Ilhas Selvagens que revelou um cenário de destruição na colónia de cagarras. O título da primeira página da reportagem não deixava margem para dúvidas: "Colónia de cagarras aniquilada".

Dez horas de viagem

Manuel Nicolau escreveu que a partida se deu do Porto do Funchal, "numa tarde de Verão, com brisa a soprar do Nordeste". Ao fim de dez horas de navegação, a comitiva ancorou na Baía das Cagarras, na Selvagem Grande. O corpo de inspecção era constituído pelo então comandante do Porto do Funchal, capitão-de-fragata Joaquim do Rosário da Costa, por um funcionário dos Serviços Florestais e por Alexander Zino.

Apesar do cenário desértico, o jornalista descreveu as Selvagens como um lugar de "beleza suave", sem insectos importantes, serpentes ou animais perigosos, uma "terra de silêncio em pleno mar", onde só à noite se ouve o ruído das cagarras.

Milhares de asas decapitadas

A visita começou numa zona onde abundavam milhares de ninhos, mas, segundo Manuel Nicolau, foram precisos dez minutos de caminhada a observar centenas de ninhos até surgir uma única cagarra de volta ao seu habitat, o que "demonstra bem os actos de pilhagem".

Por toda a ilha, Manuel Nicolau e os restantes membros da expedição encontraram "milhares de asas decapitadas, de cagarras velhas" e diversos montes de cagarras jovens em decomposição. O jornalista descreveu a decepção de Alexander Zino, que o guiou pela ilha, como tão profunda que lhe causou "verdadeira pena".

Também a casa particular de Alexander Zino foi encontrada violada, com todo o recheio levado e apenas as paredes de pé, em actos de vandalismo"“praticados não se sabe por quem".

"A minha primeira impressão é de tristeza"

Ouvido pelo DIÁRIO no final da visita, Alexander Zino afirmou: "A minha primeira impressão é de tristeza". Lamentou que, depois do esforço do Museu Municipal do Funchal e de amigos do Museu de Paris, se encontrasse "praticamente" aniquilada a colónia.

Alexander Zino explicou que o mais grave é a morte das aves adultas, já que a cagarra só põe um ovo por ano e uma jovem demora pelo menos seis anos a começar a pôr. Matar uma cagarra velha representa, segundo disse, matar "talvez seis, sete, oito ou dez cagarras jovens”" Calculou que "devem ter sido dizimadas uns bons milhares de cagarras velhas" e descreveu uma "carnificina", acrescentando: "Nunca vi coisa igual".

Sobre o futuro, admitiu: "Francamente eu não sei", defendendo que só a colaboração da Secretaria de Estado do Ambiente, da Direcção-Geral dos Recursos Florestais e Aquícolas, da Capitania do Porto do Funchal e da Marinha poderá levar a uma solução.

Capitão do Porto defendeu fiscalização permanente

O comandante Joaquim Rosário Costa lembrou que já existia um decreto a proteger a fauna e a flora das Selvagens e da zona marítima adjacente até à batimétrica dos 200 metros, mas considerou que este "parece na realidade não ser suficiente". Defendeu uma fiscalização eficiente, incompatível com visitas semanais, ou até bissemanais, de navio ou avião, e a criação de uma vigilância permanente, com "um residente" nas ilhas que garanta a protecção das espécies e o cumprimento da lei.

O responsável admitiu ainda a construção de um farol, dado que, nos cinco anos anteriores, tinham ocorrido dois grandes naufrágios nas Selvagens, cujos faroleiros poderiam assumir a fiscalização da reserva.

O comandante sublinhou também a importância económica indirecta da cagarra para a Madeira: as aves ajudam os pescadores a detectar a presença do atum. E foi taxativo: "Condeno todas essas depredações".

O alerta do DIÁRIO

Manuel Nicolau concluiu a reportagem no DIÁRIO escrevendo que "só temos a lamentar semelhantes actos de destruição" e que não basta criar comissões e decretos de protecção às aves marinhas, acrescentando que é preciso vigilância, sobretudo durante o período da incubação, algo que, escreveu, não se fez "por razões que desconhecemos". A reportagem terminava com um apelo: "Aqui deixamos o alerta a quem de direito!".