DNOTICIAS.PT
Alterações Climáticas Madeira

ARM garante água para fechar o ano agrícola apesar de lagoas já estarem entre 20% e 30%

Amílcar Gonçalves recorda que perto de 70% da água de giro é de origem subterrânea. Chuvas torrenciais e derrocadas são os grandes desafios à gestão do regadio

“Não vai faltar água. Nós fazemos tudo para que isso não aconteça”, afirmou Amílcar Gonçalves.
“Não vai faltar água. Nós fazemos tudo para que isso não aconteça”, afirmou Amílcar Gonçalves.

A disponibilidade de água para regadio na Madeira mantém-se assegurada, apesar de as reservas nas lagoas estarem já entre os 20% e 30% da capacidade, revelou ao DIÁRIO Amílcar Gonçalves, presidente da Águas e Resíduos da Madeira (ARM), à margem da conferência ‘Agricultura madeirense: entre poios e alterações climáticas, como redesenhar o território para a Madeira continuar a dar frutos?’, que decorre esta segunda-feira no auditório do Museu Casa da Luz. O responsável garante que “não vai faltar água”, sublinhando que a gestão das reservas é feita precisamente para assegurar a parte final do período de regadio.

“Não vai faltar água. Nós fazemos tudo para que isso não aconteça”, afirmou Amílcar Gonçalves, considerando que o ano agrícola foi globalmente positivo do ponto de vista do abastecimento. O bom Inverno permitiu manter os períodos de giro dentro de parâmetros considerados normais, apesar de um Verão particularmente quente.

Segundo o presidente da ARM, os giros de rega, que em anos mais difíceis chegaram a prolongar-se por 40 a 50 dias, mantiveram-se este ano “à volta dos 18, 20 dias”. A regularidade permitiu à ARM, empresa pública que gere a distribuição de água em alta, assegurar a entrega deste importante recurso aos agricultores dentro dos prazos previstos, mesmo perante o aumento das temperaturas durante o Verão.

As reservas superficiais, contudo, estão agora em níveis baixos. Amílcar Gonçalves estima que as lagoas estejam “dentro de uns 20% e uns 30%”, explicando que esta redução resulta da estratégia de gestão adoptada pela empresa: reservar água para a fase final do giro, período em que ainda poderá ser necessário assegurar rega durante o mês de Outubro.

“Esta água” é guardada para a parte final do giro e, com o regresso do Inverno, a ARM espera voltar a encher as lagoas, num processo que o responsável descreve como um “círculo virtuoso”.

Quase 70% das origens são subterrâneas

A capacidade de resposta do sistema não depende, porém, apenas das reservas superficiais. Cerca de 70% das origens de água da ARM são subterrâneas, provenientes de nascentes e galerias que captam água armazenada no interior da ilha.

“São os grandes lençóis freáticos que nós temos e que nós usamos”, explicou Amílcar Gonçalves, salientando que estas reservas subterrâneas são utilizadas tanto para a agricultura como para o abastecimento público e constituem uma componente fundamental para a regularização do sistema hídrico regional.

A água captada no Norte da ilha continua a desempenhar também um papel relevante no abastecimento do sistema de regadio. Mesmo durante o Verão, explicou, alguns episódios de precipitação no Norte permitem alimentar o sistema, a par da recarga das reservas subterrâneas.

Regadio ainda muito dependente de métodos tradicionais

Apesar dos investimentos realizados pela ARM na modernização da rede, o presidente da empresa reconhece que o regadio madeirense continua fortemente dependente de métodos tradicionais.

A ARM tem vindo a reparar canais e a substituí-los, em determinados casos, por soluções alternativas, devido à dificuldade e aos riscos associados à reconstrução das estruturas originais, muitas delas construídas nas décadas de 1950 e 1960.

Ao mesmo tempo, a empresa tem reforçado a medição e o conhecimento sobre os volumes entregues e o percurso da água. Mas a distribuição continua, em larga medida, a depender dos levadeiros, que fazem a entrega da água aos agricultores de acordo com os tradicionais giros.

“Há cada vez mais necessidade, se calhar, de alguma inteligência aplicada à ciência do regadio”, defendeu Amílcar Gonçalves, considerando que existe margem para uma utilização mais eficiente dos recursos.

O responsável aponta a rega por alagamento como uma prática que ainda persiste em muitas explorações, apesar da existência de soluções mais eficientes, como a rega gota-a-gota e a microaspersão.

A transformação, porém, esbarra numa característica estrutural da agricultura madeirense: o minifúndio. Com parcelas que, em média, rondam os 100 metros quadrados, e algumas ainda menores, os agricultores dispõem frequentemente de pouco espaço para instalar depósitos ou outras infraestruturas de apoio ao regadio.

“Há aqui uma dificuldade intrínseca ao sistema”, reconheceu, considerando que a dimensão e a dispersão das parcelas tornam difícil uma mudança tecnológica generalizada das condições de regadio.

Alterações climáticas também castigam as levadas

Amílcar Gonçalves alerta, contudo, que o impacto das alterações climáticas sobre a gestão da água não se limita à disponibilidade do recurso. Os fenómenos extremos estão também a aumentar a pressão sobre as infra-estruturas de distribuição.

As chuvas torrenciais podem provocar derrocadas que atingem levadas e obrigam a intervenções rápidas para restabelecer o serviço. São operações que, segundo o presidente da ARM, decorrem frequentemente em locais de difícil acesso e com condições de segurança exigentes.

“Estas chuvas torrenciais (...) dão origem a derrocadas, as derrocadas vão, no fundo, afectar as nossas levadas e ficamos ali com situações críticas”, explicou.

A reparação rápida destas estruturas é, por isso, uma das preocupações da empresa, num contexto em que se torna também mais difícil encontrar trabalhadores disponíveis para executar operações em zonas de orografia particularmente acidentada.

Para o presidente da ARM, são estas duas dimensões — a disponibilidade futura do recurso e a capacidade de proteger as infra-estruturas que permitem distribuí-lo — que colocam novos desafios à gestão da água na Madeira perante a evolução do clima.