Do Chão da Lagoa à Praia do Vigário
Entre a ilusão da mudança e a urgência da verdade por vezes quando abordamos alguém para o debate ou uma conversa sobre política a grande parte desvia logo o sentido da conversa ou rompe literalmente o diálogo, pois a maioria acha que a política é para os políticos e o sistema agradeça pois continuam a deixar de fora as grandes questões que realmente nos afetam em troca de banalidade supérfluas, ou manobras de distração, futebol, ‘Beeg Brother’s’, telenovelas ou pior ainda alguma comunicação social que se envolve em papel celofã com o sistema e depois coloca as notícias ou a informação numa caixa de presente muito vistosa.
A rutura do bipartidarismo PS-PSD resulta diretamente do colapso ético e funcional da classe política tradicional. Ao longo de mais de meio século de regime democrático, o sistema não só falhou em produzir os efeitos desejados, como permitiu o alastramento da corrupção e o sucessivo adiamento das soluções para os problemas reais dos cidadãos. Foi neste cenário de desilusão, descontentamento e indignação que emergiu o CHEGA um canal de contestação que capitalizou o voto de protesto através de um líder carismático, conquistando um eleitorado sedento de justiça. No entanto, o CHEGA e André Ventura arriscam-se a ser apenas o produto de uma democracia inacabada. Limitaram-se, até agora, a mudar o cenário de um palco onde a política continuou a trocar a esperança por promessas irrealizáveis. Ao contrário do que a propaganda do partido tenta transparecer, o quotidiano da organização tem revelado contradições profundas: episódios internos turvos, situações duvidosas e uma sucessão constante de demissões, desfiliações, suspensões e expulsões. É compreensível que a rutura com um modelo político perpetuado durante cinquenta anos gere tensão e resistência. Contudo, para apresentar uma verdadeira alternativa, não basta querer mudar é preciso saber como mudar. Em primeiro lugar, exige-se que a liderança se rodeie de quadros idóneos, sérios, determinados e conhecedores da realidade do país. É imperativo afastar o oportunismo, travar os infiltrados, controlar os vícios do sistema e colocar o ego e o protagonismo de lado em favor do serviço à nação. Se a intenção é transformar Portugal mantendo a mesma mecânica dos velhos partidos com campanhas centradas na exaltação do líder no palanque e num eleitorado reduzido ao papel de mero figurante que abana bandeiras e bate palmas a cada intervenção o resultado será sempre “mais do mesmo”. A verdadeira mudança exige arriscar um novo modelo de comunicação e demonstrar uma conduta pública irrepreensível, limpa de qualquer mácula. Passa por devolver a voz e a responsabilidade aos cidadãos, libertando-os da dependência do Estado e devolvendo a democracia a quem ela pertence. Para quem se apresenta com a promessa de refundar o país, a transformação tem de começar dentro de portas, na atitude e no modo de pensar. Afinal, querer não CHEGA: é preciso ter a coragem de ser diferente.
A. J. Ferreira.