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Estudo identifica calibre e proveniência de projécteis da Segunda Guerra Púnica

Foto Depositphotos
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Uma equipa de investigação interdisciplinar identificou o calibre e a origem do chumbo utilizado no fabrico de projéteis de funda (glandes) durante a Segunda Guerra Púnica (218-206 a.C.), no vale do Alto Guadalquivir, atual província de Jaén.

O trabalho da equipa interdisciplinar constituída por investigadores das universidades de Jaén (UJA), Autónoma de Madrid (UAM) e do País Basco (UPV/EHU) analisou a metrologia e a assinatura isotópica, através de espetrometria de massa (MC-ICP-MS), de projécteis provenientes de três cenários de guerra estudados arqueologicamente pela Universidade de Jaén, no sul de Espanha, nas últimas duas décadas: Baecula (208 a.C.), Iliturgi (206 a.C.) e Puente Tablas.

Entre as conclusões do estudo, destaca-se a identificação de um "calibre" padronizado em termos de peso, situado entre as 30 e as 40 gramas, para além da deteção de um tipo de projétil mais pesado, três vezes superior à média anterior, fabricado para funções específicas de ataque e cerco a oppida (povoações fortificadas) ibéricos.

Este tipo de projétil foi utilizado de forma coordenada, juntamente com artilharia de torção, para limpar defesas e parapeitos estáticos durante o ataque do exército romano a Iliturgi, segundo informações de um comunicado da UJA.

Através da análise de isótopos de chumbo e da utilização do algoritmo de lógica analítica AMALIA, que permitiu comparar as amostras com a base de dados internacional ORACLE, contendo mais de 150 mil registos, a equipa conseguiu reconstruir as rotas de abastecimento de chumbo utilizadas pelos exércitos (romano e cartaginês) e pelas populações ibéricas.

Por um lado, os projéteis registados no campo de batalha de Baecula, bem como alguns dos registados no ataque a Iliturgi apenas dois anos depois, apresentam uma elevada heterogeneidade isotópica, resultado da mistura de minério de chumbo proveniente tanto do distrito mineiro de Linares como do de Cartagena.

Já o chumbo proveniente do distrito mineiro de Linares foi utilizado de forma recorrente pelos habitantes de Iliturgi em objetos do quotidiano, como pesos para redes de pesca, bem como no fabrico de alguns dos projéteis com que tentaram repelir o ataque romano.

Quanto aos projéteis de maior calibre, todos apresentam a mesma assinatura isotópica, que os associa ao distrito mineiro de Cartagena, confirmando que o exército romano comandado por Cipião, o Africano, se reabasteceu de armas e matérias-primas cartaginesas após a tomada da capital púnica peninsular, Qart-Hadasht, no ano 209 a.C., conforme relatam as fontes textuais conservadas.

Por fim, os projéteis de chumbo documentados no oppidum de Puente Tablas apresentam assinaturas isotópicas não peninsulares, compatíveis com depósitos do Norte de África (Tunísia), o que poderá indicar a presença ou a influência territorial de contingentes norte-africanos entre as comunidades ibéricas do Alto Guadalquivir no final do século III a.C.