Estudos Sem Cultura
Sou licenciado em Estudos de Cultura pela Universidade da Madeira. Vejo que, a cada ano que passa, o número de vagas não parece diminuir. No entanto, não existe procura por diplomados nesta área. Por vezes, os municípios abrem concursos públicos nos quais escolhem a dedo com quem querem perpetuar os seus regimes de exclusividade. Se participarem nos concursos públicos na Calheta e não tiverem os apelidos Cachucho ou Agrela, nunca chegarão aos primeiros lugares. Na Ponta do Sol, existe um estado de brutidão que não elucida as mentes. Na Ribeira Brava, entenderão que toda a gente tem medo de falar, e que “quem tem cu tem medo”. Ao contrário, por exemplo, da revista Girão, este município conta com uma prática editorial singular. Gerida sem fio de razão, ou de amor-próprio, esta revista deixa de parte as práticas de cultura e de tradição para dar lugar a notícias do betão e a formas paupérrimas de propaganda política que evidenciam o facto. Quanto às obras que ficam paradas, o Diário de Notícias já se encarrega de noticiar. Tal como na história de Narciso, a profecia foi clara: Narciso teria uma vida longa apenas se “jamais conhecesse a si mesmo”. Da mesma maneira que Narciso, esta personificação da frieza e da arrogância está condenada a definhar até falecer à beira do seu reflexo. Se aceitassem o meu conselho, diria para fazerem como a banda desenhada de Asterix & Obelix, colocavam as personagens principais na primeira página e, no resto do livro, trabalhavam matérias onde realmente existe temas fecundos, interessantes e significativos para a população.
Mas, enfim, divago. Não era disto que queria falar.
Gostava que entendessem que, na Universidade da Madeira, assim como em muitos outros estabelecimentos de ensino em Portugal, não existe uma relação entre o mercado de trabalho e a educação, o que leva as universidades a se tornarem numa fábrica de desempregados formados. Nisto, acho que conseguíamos aprender com os países nórdicos. No caso da Noruega, nas pequenas ilhas que ocupam a região norte, falo, em específico da ilha de Hadseløya, que tem um pouco mais do dobro da extensão do Porto Santo, em quilómetros, existe, com muito sentido, um aconselhamento adequado para percorrer vias de ensino ou profissionais com taxas de empregabilidade alta. Ainda que a educação seja orientada para a procura local, os vários setores desenharam um ecossistema onde estudar e trabalhar se fundem. Portanto, os estabelecimentos de ensino não abrem vagas para cursos com uma taxa de empregabilidade baixa ou inexistente – e assim devia ser. É também uma forma de dar a entender que talvez o curso em questão necessite de alguma reforma para reavivar os seus interesses. Pois claro, o curso de Estudos da Cultura é um desses mesmo. Apesar da formação mirabolante em tudo e mais alguma coisa, é um dos cursos onde se sente maior desprezo. Nem sequer é reconhecido como habilitação própria para o ensino, algo que considero um crime. Como é possível um curso, reconhecido pela sua plasticidade e multidisciplinaridade não ser considerado para nada? Seria de pensar, pelo menos, que seria adequado para o ensino de Português, Estudos Sociais ou História. Fico à espera de que alguém me desafie nisto.
Bem-vindos à jornada do desespero. Na Madeira, falar a verdade às vezes custa mais que os dentes. Conto com um mestrado e uma licenciatura que de nada valem e o caminho que se segue é uma forca. Apesar de ter um currículo vasto e pujante, o número de emails ao qual não tive resposta consegue ser superior, e assim vai a vida de quem é formado em áreas mortas como o latim.
Sabem que mais, talvez o comando da vida quer que eu seja um escritor, pois esta é a vida de um escritor. Fumo, mas é, na verdade, o cigarro que me consome. Acérrimo precursor da minha verdade, vanguardista, como um Mário de Sá-Carneiro, génio em si desconhecido, colocado no escândalo literário e na cidade desértica, que criava arte à custa das suas frustrações e desencantos e acabou a vida com cartas de despedida e estricnina.
Egas Viana