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Carta ao meu João Nuno, o pai

Meu João Nuno. Com os olhos lacrimejantes te escrevo esta carta que receberás publicamente, contradizendo a discrição que tanto te caracteriza e contrasta com a minha.

Certamente muitos dirão que me estou a expor, mas não será algo a que já não esteja habituada e se se espalha tanto ódio pelo mundo, porque não espalhar o amor?

Escolho espalhar o amor.

Temos quase sete anos de diferença, nasceste nos idos de 73 e eu nos de março de 80, conheço-te desde os meus catorze anos, quando a minha mãe só emprestava o carro ao meu irmão para vos encontrar na Ribeira Brava se: “- levares a tua irmã”. Sempre te achei um betinho, cheio de classe, branquinho e tão culto que roçava a irritação. Não havia nada que não soubesses no que a História e cultura geral dissesse respeito, ainda hoje é assim, a minha enciclopédia viva. Irrita, ainda hoje, porque eu, aluna de 19 e 20 a História, já não me lembro de 1/3 do que te sai da boca com tanta naturalidade, como se te tivesse descido uma língua do Espírito-Santo de dom.

Sei que não sou uma pessoa fácil, sou chata, aguerrida, tenho a mania que tenho razão, adoro mandar as minhas bocas, nomeadamente que conduzo melhor que tu, mas ambos sabemos ser verdade. Contra factos não há argumentos.

Tu és uma pessoa especial. Tu estiveste lá em todos os meus momentos, bons e maus, desde 21 de novembro de 1999, algumas semanas após o teu aniversário, coincidente com o dia de São Nuno de Santa Maria, que te deu o nome, que também já existia na minha família de sangue. Naquele jantar dos teus 26 anos, em Alcabideche, quando me tiraste o telemóvel com a desculpa de indagar, visto ser um modelo recente, “roubaste-me” o número e numa altura em que, ainda, não existiam mensagens escritas, deixavas-me músicas no voice mail, e reiteradamente “The Long and Winding Road”, de Paul McCartney, que acabaria sendo a música de abertura do baile do nosso casamento, naquele maravilhoso 29 de julho de 2006.

Tu estiveste lá quando fui assaltada no viaduto do Campo Grande, para me abraçar, enquanto chorava convulsivamente. Tu estiveste lá tantas vezes que o meu Fiat Uno avariou. Lembras-te daquela vez que fomos ao Colombo e faltou a luz? Lá fora uma tempestade horrorosa, o carro a abanar e tu levaste-me ao colo? Nós parados na 2.ª circular e o teu pai a te ligar todo preocupado e tu a dizeres que estavas em casa…

Tu estiveste lá quando o meu pai ficou paraplégico, ajudaste a levá-lo à fisioterapia, às consultas, onde fosse preciso e secaste-me, mais uma vez, as lágrimas de ter perdido um pai ágil e ativo de forma cruel e inesperada. Ainda hoje o fazes e a ajuda que dás aos meus pais é como se fosse em dobro, para mim.

Entretanto, em 2010, também nos idos de março, nasce o nosso príncipe, o betinho que não quer sê-lo, o nosso João Nuno, bebé, menino doce, igualmente culto, que não deixa de ter as vicissitudes dum adolescente, agora, com 16 anos e que está cada vez mais filho da mãe, literalmente: irónico, cantor, ator, sarcástico, musical e intenso.

Desde que ele nasceu transformaste-te no homem que és hoje, passaste a ser o “pater família” e como o fazes tão bem. És um pai maravilhoso e não me culpas quando a minha vida, que certamente escolhi, me retira tempo para as tarefas de buscar, levar, trazer.

Adoramos cantar, dançar, e passamos a vida a gozar um com o outro. São 28 anos de escárnio e maldizer que nos sustenta e fundamenta.

Quando decidi entrar na política tu, aselha convicto, ofereceste-te para me conduzir o carro de campanha por caminhos pontassolenses que só Deus passaria sobre uma nuvem e protegeste-me tanto… e sofreste também, às mãos de quem te quis usar para me atacar, mas nunca vacilaste.

Meu João Nuno pai, a minha intensidade não é para todos, a minha personalidade não é para todos, as minhas escolhas não são para todos. Mas, tu não me julgas, não me atacas. Tu cozinhas para mim, porque sabes que detesto. Tu cuidas de mim. Tu és o companheiro que Deus mandou para me manter viva. Tu és o presente que Deus me deu e contigo o nosso filho que não se poderia chamar senão: João Nuno, este o anjo que, graças a Deus, é as “ventas da mãe”, também não podes ter tudo…

Obrigada meu amigo, meu amor, meu Catrina, meu nobre, meu beto. Da tua Sara.