Urgências
A notícia do Diário sobre a reduzida procura dos Serviços de Atendimento Urgente durante a madrugada levanta uma questão simples: justifica-se manter oito Centros de Saúde abertos 24 horas por dia?
Entre a meia-noite e as oito da manhã, estes serviços registam, em conjunto, cerca de 25 atendimentos por noite, havendo unidades com procura praticamente nula.
A proximidade dos cuidados tem valor, sobretudo nos concelhos mais periféricos. Mas as realidades são diferentes: Câmara de Lobos e Ribeira Brava ficam a poucos minutos da urgência hospitalar e, na costa norte, existem vários serviços abertos durante toda a noite para uma procura muito reduzida.
Também importa perguntar que tipo de urgências estamos a atender. Muitos episódios poderiam, provavelmente, ser resolvidos durante o dia nos cuidados de saúde primários. O recurso à urgência para situações não urgentes resulta, essencialmente, da dificuldade que muitos utentes têm em conseguir resposta médica fora do contexto de urgência.
E aqui surge uma contradição: manter estes serviços abertos durante a noite consome recursos humanos que fazem falta precisamente durante o dia. Um médico que assegura um turno noturno não pode, naturalmente, manter no dia seguinte a mesma disponibilidade para a atividade assistencial, tendo direito ao necessário período de descanso. O resultado é uma redução da capacidade dos centros de saúde para realizar consultas programadas — exatamente a resposta que deveria ser reforçada para evitar que situações não urgentes acabem por recorrer à urgência. É fundamental evitar a descompensação de doenças crónicas que se transformam em verdadeiras urgências.
A isto acrescem os elevadíssimos custos financeiros de manter oito estruturas em funcionamento permanente, mobilizando médicos, enfermeiros, assistentes operacionais, administrativos, segurança e todos os restantes meios necessários, por vezes para atender zero, um ou dois utentes durante uma noite. E as situações verdadeiramente urgentes e emergentes que exigem exames ou cuidados diferenciados acabam por ser encaminhadas para o hospital.
Por isso, faz todo o sentido conhecer o custo do funcionamento noturno de cada SAU e saber se existe uma avaliação séria do seu custo-benefício. Quantos casos são efetivamente resolvidos? Quanto custa cada atendimento durante a madrugada? Quantos são posteriormente transferidos para o hospital? E que impacto tem esta opção na atividade diurna?”
Luís Gomes