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Crónicas

Era magia, só podia ser

Na curva de caminho onde cresci, esse lugar pacato e sem história, o amor era um assunto complicado e misterioso

A curva de caminho onde cresci era um lugar pacato e sem história e, talvez por isso, a minha tia Alice dizia que vivíamos no fim do mundo onde tudo chegava mais tarde. E isso valia para a falta de água nos meses de Verão ou para os cortes de electricidade que aconteciam sempre na hora da telenovela e a luz voltava depois de passar o episódio, quando nos tínhamos habituado à luz da vela e a deitar cera em cima das mãos, só para sentir como era quente.

O meu irmão e eu fazíamos isso e ninguém dava importância ao caso. A minha mãe praguejava primeiro para encontrar as velas e depois praguejava a Casa da Luz, mas fora estes contratempos, os dias corriam iguais uns aos outros. As pessoas corriam para apanhar o autocarro e, à tarde, faziam fila para entrar noutro e voltar a casa. Aos sábados arrumavam a casa, varriam os quintais; aos domingos iam à missa, comiam um almoço melhorado e descansavam à tarde. Os homens a ouvir o relato da bola na telefonia e a jogar às cartas na garagem do meu tio Humberto; as mulheres a conversar umas com as outras, na fonte ou no terreiro de casa.

Num lugar assim todos os incidentes se registavam, fosse porque motivo fosse, o mais importante era entreter-se com assuntos diferentes de trabalhar, fazer o almoço, jantar, dormir ou ir à missa. Os noivados, sobretudo os noivados desfeitos, davam que falar, embora nada gerasse mais burburinho do que uma noiva que ia à pressa para o altar e antes de se notar a barriga. Também se ouvia e guardava todo o respeito às almas penadas que, sem se perceber como, encalhavam em certas casas e atormentavam o sono das pessoas que lá moravam. Quase sempre com portas a bater e correntes a arrastar do lado de fora da casa.

Embora o meu pai fosse descrente - e repetia a quem o quisesse ouvir que nunca tinha visto nada de esquisito, nem luzes, nem vultos, mesmo nas noites em que tinha feito o caminho bêbedo - a verdade é que também ele foi acordado pelos gritos de um vizinho que, uma noite, terá visto o Diabo e quis partilhar o encontro com a vizinhança. Nem assim o meu pai passou a ter mais respeito por bruxedos, feitiços e encantamentos, nem lhe apareceram mulheres - as feiticeiras - a exigir que as carregassem às costas numa cruz de caminho. Se fosse para ter encontros com o desconhecido, o mestre Gabriel teria preferido um OVNI, uma nave espacial, sempre seria mais moderno.

O encontro do vizinho com o Diabo e a gritaria que se seguiu foi, de facto, um dos assuntos que mais se falou, da paragem do autocarro ao adro da igreja. Ao fim de uns dias, ficou estabelecido que aquilo era obra de um bruxedo, uma coisa que as mulheres faziam aos homens para os subjugar e sempre que os queriam às ordens bastava abanar o “frasquinho”. E, apesar de estarmos em 1985, de haver televisão em todas as casas e iluminação pública no caminho, ninguém se atreveu a contrariar a tese. O caso era estranho, o casamento não era o mais feliz e a mulher do homem que fora acordado pelo Diabo era falada.

Se mesmo assim tudo estava como sempre estivera e ainda metia as forças do mal, o povo do Laranjal não encontrava outra explicação, era feitiço. A psicologia ainda não tinha subido a encosta e, verdade se diga, ninguém queria trocar a magia que corria pelos becos, espreitava nos quintais e pairava sobre as pessoas por explicações lógicas ou respostas simples. Podiam lá ser os enredos ou as circunstâncias de cada um a determinar a infelicidade, a trazer uma dor que até o juízo levava e a transformar um homem num doido que acordou a vizinhança? No Laranjal não, não era possível.

Na curva de caminho onde cresci, esse lugar pacato e sem história, o amor era um assunto complicado e misterioso, algo que vinha dos confins do universo e tanto podia ser uma benção, como uma maldição, provocar alegria ou dor, levantar ciúmes e invejas ou gerar casamentos felizes, dos que davam bonitos álbuns de casamento. As pessoas não sabiam o que lhes ia calhar, se a felicidade ou o sofrimento, se uma coisa e outra e, mesmo assim apaixonavam-se e às vezes tão perdidamente que os vizinhos não tinham outra explicação, era magia, só podia ser.