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"Um prodigioso compositor, um observador astuto do nosso mundo"

Jorge Palma, numa actuação, na Madeira, em 2018.
Jorge Palma, numa actuação, na Madeira, em 2018., Foto Arquivo/ASPRESS

Um prodigioso compositor, letrista e intérprete, um observador astuto do mundo, o autor desse "sublime hino que é 'Encosta-te A Mim'", escrevem hoje músicos nas redes sociais, em reação à morte de Jorge Palma, ocorrida na segunda-feira.

Os músicos Camané, David Fonseca, Filipe Melo, Pedro Abrunhosa, Mário Delgado estão entre aqueles que recordam "a luz na Música de Jorge Palma", com a certeza de que as suas canções continuarão a ser cantadas, como também asseguram atores, historiadores, musicólogos.

Pedro Abrunhosa recorda madrugadas dos anos 1980, quando eram "quase adultos" e cruzaram "mãos e harmonias no piano do Hot Clube", com a música por "teto e chão".

"Há uma luz na Música de Jorge Palma que é espinha dorsal deste país", uma luz "que o há de ajudar a construir-se, porque não há Portugal sem o espelho translúcido, honesto, dos seus autores", escreve Pedro Abrunhosa, que lembra como encerrou muitos espetáculos "com esse sublime hino que é 'Encosta-te A Mim'".

"Dediquei-lhe há três dias a última canção do meu concerto", lembra o criador de "Tudo o que eu te dou". "Não foi premonição. Foi respeito. Pelo homem e amigo que foi e pelo Músico que há de continuar a ser". E conclui: "Este país não faz ideia do quanto precisa de ti, Jorge! Encosta-te a nós. E obrigado! Mil vezes, obrigado!"

David Fonseca diz que a sua "admiração profunda" por Jorge Palma "tem várias frentes: prodigioso compositor, letrista e intérprete, um pianista fora de série, um poeta, um observador astuto do nosso mundo, todas as qualidades que o colocam há décadas como um dos maiores músicos de sempre do nosso país".

O que David Fonseca mais admirava, porém, "era a sua forma inconformada de estar, um espírito livre que não se encaixava em nenhuma prateleira possível".

"Num mundo tão formatado como o nosso, [Jorge Palma] seguiu o seu caminho único, igual a si próprio e a mais ninguém", prossegue David Fonseca. "Privei com ele e o meu nervosismo de eterno admirador era sempre desfeito pelo à vontade e simplicidade da sua forma de estar, a fazer-me sempre sentir um amigo de longa data. Por vezes, o nosso país consegue ter memória curta com os seus artistas, mas não no caso do Jorge. Presenciei muitas vezes o carinho e admiração absoluta que o público tinha com ele nas suas atuações e o silêncio imediato ao início de cada canção, como se não quisessem perder uma única nota do mestre. E também o aplauso ruidoso que se seguia quando parava [...]. Nunca te esqueceremos, Jorge".

O pianista Filipe Melo fala do "enorme desgosto por ter perdido um grande músico: por saber que já não vamos ter um disco novo ou assistir a um concerto do Jorge Palma". "Mas quando esse músico é também uma pessoa tão genuinamente boa, deixa-nos algo ainda maior - uma saudade profunda, e uma pena enorme de não estar com ele novamente".

O fadista Camané, na sua página oficial, recorda o "grande compositor, grande letrista, homem de cultura e da cultura, um amigo".

E Mafalda Veiga, que partilhou canções como "Imortais" e "Tatuagens" com Palma, publica uma fotografia em que o músico escreve na sua mão, garantindo: "Querido Jorge Palma, esta tatuagem será sempre eterna".

O guitarrista de jazz Mário Delgado, que se cruzou com o músico desde o início da carreira, lembra como "nunca deixou de ser aquele Palma ou aquele Jorge que sempre foi": "Estávamos lado a lado, depois de um teste de som para um concerto, quando uma jornalista, no meio desse momento de consolidação da sua carreira, lhe perguntou: 'De que é que tem saudades?' E o Jorge respondeu, sem hesitar: 'Dos tempos em que tocava na rua, em França'".

"Ele era mesmo assim", continua Mário Delgado. "No meio do reconhecimento, dos discos, dos palcos e de tudo aquilo que entretanto conquistara, havia nele uma espécie de fidelidade ao homem que tinha sido e à música que o tinha trazido até ali. O Jorge sempre foi o Jorge. E talvez seja precisamente por isso que merece a nossa maior vénia e todo o nosso incomensurável respeito".

O ator André Gago testemunha este lado de Jorge Palma. Reproduz uma fotografia sua de um dos corredores da estação do Metro Restauradores, em Lisboa, da curva onde o ouviu tocar: "Eras já uma lenda viva [...] e fez-me confusão que alguém já com tanta notoriedade se pusesse a tocar no metro. Com o tempo, fui percebendo cada vez melhor: a música era a tua respiração, circulava como o vento, entrava por cada janela e cada porta escancarada, do metropolitano de Lisboa ao Conservatório Nacional, dos estúdios e dos palcos às ruas de Paris".

O investigador Luís Freitas Branco, autor de "A Revolução antes da Revolução", que fala da música portuguesa que emerge no ano de 1971, a partir de álbuns de José Afonso, Sérgio Godinho e José Mário Branco, entre outros, escreve hoje como "Jorge Palma foi o compositor do pós-25 de Abril, o trovador dos anseios, desesperos e amores do Portugal democrático", sendo porém "impossível restringi-lo a um período ou género", pois "dedicou a vida a fazer algo único, 'canções Jorge Palma', aquele génio melódico, espontâneo e visceral".

Para o musicólogo, "agora é fundamental pressionar os poderes públicos a abrir processos de classificação" da sua obra. E recordar álbuns como "o transcendente 'Qualquer Coisa Pá Música'", que desapareceu do mercado. "E o mesmo para Fausto e outros" músicos portugueses, clama Freitas Branco, concluindo com um verso de Palma: "Ai, Portugal, Portugal/ De que é que tu estás à espera?"

A historiadora Raquel Varela destaca "a criatividade e a verdadeira visão poética da vida" de Jorge Palma, "um dos mais talentosos": "O piano, nos seus dedos, era um caudal de sons poderosos, de sensíveis melodias, uma extensão natural da sua voz grave e doce".

O apresentador Fernando Alvim afirma, por seu lado, que a vida de Palma "é muita e [vai ser cantada] mesmo depois deste dia", por "tudo o que fez, de uma forma tão pessoal e acutilante".

"Palma foi a pessoa a quem, em concerto, mais vezes ouvi dizer 'Palma, és o maior'. E a verdade é que era mesmo", conclui o apresentador.

O investigador de música portuguesa João Carlos Callixto, autor de "Na Terra dos Sonhos", obra dedicada aos poemas, à música e ao percurso discográfico de Jorge Palma, parafraseou um verso de Sérgio Godinho, para aludir à morte do músico: "Abriu a janela e voou".

Callixto, garante, irá sempre lembrar Jorge Palma "como um dos nossos maiores... 'Enquanto houver estrada para andar'".

Jorge Palma, um dos cantores e compositores mais marcantes da música portuguesa, nasceu em Lisboa, em 04 de junho de 1950. Morreu na segunda-feira à noite, aos 76 anos.