Matemática, dificuldades e insucesso

Os resultados do PISA 2025 confirmam dificuldades na aprendizagem da Matemática. O PCIMES procura compreender melhor essas dificuldades e contribuir para respostas pedagógicas mais eficazes.

Os resultados do PISA 2025 voltaram a colocar a aprendizagem da Matemática no centro da discussão sobre a educação em Portugal. Mais do que procurar responsáveis, importa compreender o que os dados revelam e perceber onde começam e como se manifestam as dificuldades dos alunos.

Em Matemática, Portugal obteve 460 pontos, abaixo da média da OCDE, de 463, registando uma descida de 12 pontos relativamente a 2022. Cerca de 65% dos alunos atingiram pelo menos o nível 2 de proficiência e apenas 6% alcançaram os níveis mais elevados, 5 e 6. Desde 2015 aumentou também a percentagem de alunos abaixo do nível 2.

Estes resultados devem, contudo, ser interpretados com prudência. O PISA não avalia apenas a aplicação de fórmulas ou procedimentos. Avalia também a capacidade de utilizar conhecimentos matemáticos em diferentes situações, interpretar informação, resolver problemas e raciocinar perante situações novas. Os resultados mostram tendências, mas não explicam, por si só, as causas das dificuldades.

É neste ponto que o trabalho realizado nas escolas assume particular importância.

A Matemática tem uma característica fundamental: as aprendizagens são cumulativas. Uma dificuldade não ultrapassada numa determinada etapa pode transformar-se num obstáculo quando surgem conteúdos mais complexos. Fragilidades em operações básicas, frações ou álgebra podem dificultar posteriormente a aprendizagem de funções, geometria e a resolução de problemas.

A transição para o ensino secundário pode tornar essas dificuldades mais visíveis, devido ao aumento da complexidade dos conteúdos e da autonomia exigida aos alunos.

Foi neste contexto que surgiu o PCIMES - Prevenir e Combater o Insucesso a Matemática no Ensino Secundário, um projeto de investigação e intervenção pedagógica desenvolvido em escolas da Região Autónoma da Madeira.

O objetivo do projeto não se limita a analisar os resultados dos alunos. Procura identificar e caracterizar as dificuldades de aprendizagem em Matemática, compreender como se manifestam e analisar fatores pedagógicos e comportamentais que podem estar associados à aprendizagem.

Os dados recolhidos permitiram identificar dificuldades em áreas como o cálculo, as frações, a multiplicação, a álgebra, a geometria, as funções e a interpretação de enunciados. Foram também identificadas questões relacionadas com os métodos de estudo, a regularidade do trabalho e a autonomia.

Entre os dados obtidos através dos questionários aos estudantes, 66,6% afirmaram não estudar Matemática regularmente e 88,8% indicaram que estudam sobretudo quando se aproximam os testes. Estes dados não permitem estabelecer, por si só, uma relação direta de causa e efeito com o insucesso, mas ajudam a caracterizar comportamentos relevantes para a aprendizagem.

Também a perspetiva dos professores foi considerada. Os docentes envolvidos identificaram dificuldades na transição entre o 3.º ciclo e o ensino secundário, fragilidades nos conhecimentos fundamentais e dificuldades na interpretação e resolução de problemas.

O PISA e o PCIMES trabalham em planos diferentes, mas complementares. O primeiro permite conhecer tendências gerais do desempenho dos alunos portugueses; o segundo procura aprofundar a análise a partir da realidade concreta das escolas.

Não existe uma solução única para o insucesso a Matemática. As dificuldades são diversas e os contextos educativos também. Qualquer resposta deverá começar por um diagnóstico rigoroso, pela identificação das aprendizagens que precisam de ser consolidadas e pelo acompanhamento da sua evolução.

É igualmente importante compreender que aprender Matemática não significa apenas saber executar cálculos. É necessário interpretar um problema, selecionar uma estratégia, organizar o raciocínio, justificar uma resposta e verificar se o resultado faz sentido.

Neste sentido, projetos de investigação desenvolvidos diretamente nas escolas podem contribuir para conhecer melhor as dificuldades de aprendizagem, avaliar estratégias pedagógicas e produzir conhecimento a partir da realidade educativa.

O desafio da Matemática não deverá ser apenas melhorar uma classificação internacional. A questão fundamental é garantir que cada aluno adquire os conhecimentos e competências necessários para continuar a aprender, resolver problemas e compreender melhor o mundo que o rodeia.

Mais do que procurar culpados, importa compreender as dificuldades, identificar as suas causas possíveis e encontrar formas consistentes de ajudar os alunos a ultrapassá-las.

João Viveiros
Professor de Matemática e Investigador