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Condutores em Cabo Verde pedem segurança na estrada marcada por curvas e falta de protecção

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FOTO ELTON MONTEIRO/LUSA

Descidas íngremes, curvas apertadas e precipícios sem proteção caracterizam o percurso onde um autocarro caiu e matou 25 pessoas na ilha cabo-verdiana do Fogo, uma rota procurada pelas suas paisagens, mas que condutores e moradores querem ver mais segura.

"Faço o percurso muitas vezes. É um local muito perigoso: tem descidas acentuadas, não tem proteção, sinalização nem iluminação", descreve à Lusa Luís Gomes, 35 anos, condutor de 'hiace', como são conhecidos em Cabo Verde os veículos de transporte coletivo de passageiros.

A via liga a cidade de São Filipe a várias comunidades rurais e à zona de Chã das Caldeiras, onde se encontra o vulcão do Fogo, um dos principais pontos turísticos da ilha.

Apesar de ser uma estrada relativamente "recente, construída há cerca de quatro anos", Luís Gomes, que conduz há 12 anos, afirma que as condições do percurso dificultam a circulação e geram receio entre os passageiros.

"As pessoas gostam de ir visitar Chã das Caldeiras. Levo sobretudo turistas para o vulcão. Reclamações há todos os dias e agora o medo aumentou", explica.

O motorista sublinha que aquela é a ligação mais curta para a zona do vulcão, embora exista uma via alternativa, mas que é utilizada sobretudo pelas comunidades que vivem mais próximas do percurso.

As dificuldades aumentam com as condições meteorológicas, sobretudo nas zonas de maior altitude, onde o nevoeiro pode reduzir drasticamente a visibilidade.

Para Gerson Moeda, taxista de 28 anos, que conduz desde 2017, o nevoeiro é um dos maiores obstáculos.

"Tem muitas curvas, ribeiras, não tem iluminação nem sinalização. Nós tomamos precauções, mas, para quem não conhece, é pior. Uma vez demorei uma hora num percurso que se faz em meia hora, por causa do nevoeiro", conta.

Gerson Moeda aponta que costuma transportar moradores e cabo-verdianos residentes no estrangeiro que regressam à ilha de férias e seguem para a zona do vulcão, e defende melhorias na iluminação e na sinalização.

António Fortes, 65 anos, também conhece a estrada de várias viagens para visitar amigos e destaca a inclinação e a largura reduzida em alguns troços.

"Tem muita inclinação e é muito estreita. O travão é complicado de fazer naquelas descidas", afirma, acrescentando que, com chuva e nevoeiro, a circulação torna-se ainda mais difícil.

"Um dia passei lá e estava chuva e nevoeiro. Foi complicado, quase se viajava parado", recorda.

António Fortes diz que a estrada não tem sinalização suficiente e que as proteções existentes em alguns pontos não chegam para garantir a segurança.

"É preciso uma intervenção para que qualquer carro possa circular com segurança. Eu já não volto lá sem isso", afirma.

António Silva, padeiro de 47 anos, também já percorreu o trajeto com familiares e considera que a inclinação, as curvas e a largura da via tornam a circulação perigosa.

"A estrada é sempre perigosa. É apertada e tem rochas altas. A entrar no período de chuva, a visibilidade é mínima. É preciso pôr proteção nas bermas para evitar desastres", apela, indicando que é muito usada para quem procura paisagens.

Zaide de Pina, vendedora de frutas e legumes, de 31 anos, percorreu a estrada em julho e considera que a via não oferece condições adequadas ao movimento diário.

"Não é uma estrada apropriada. Muitos 'hiaces' fazem a trajetória, com alunos que vêm para São Filipe todos os dias", afirma.

A cerca de uma hora da cidade de São Filipe, à medida que se avança pelas comunidades rurais, a estrada acompanha as encostas vulcânicas do Fogo, entre curvas e contracurvas, subidas e descidas acentuadas, troços estreitos e lombas.

A paisagem é marcada pela seca, com árvores ressequidas num ano de pouca chuva.

Pelo caminho, há troços em que as pedras podem cair sobre a via e outros onde a estrada se estreita ao ponto de dificultar o cruzamento de dois veículos.

Quando um carro surge em sentido contrário, um dos condutores tem, em alguns pontos, de parar ou aproximar-se da berma para permitir a passagem.

Dentro do carro, os solavancos acompanham a viagem e, em alguns troços, o nevoeiro fecha a paisagem e reduz a visibilidade.

É neste cenário que circulam diariamente moradores, táxis e 'hiaces', além de visitantes atraídos pelas paisagens da ilha e pelo vulcão, que domina a paisagem do Fogo.

Para Nuías Silva, presidente da Câmara Municipal de São Filipe, é necessário avaliar as condições da estrada e reforçar as medidas de segurança para prevenir situações futuras, mas sem antecipar conclusões sobre as causas do acidente.

O autarca lembrou que se trata de uma estrada nacional e defendeu intervenções como a instalação de "parapeitos" nas vias consideradas perigosas.

A Estradas de Cabo Verde, empresa pública responsável pela gestão da rede rodoviária nacional, já esteve no local para um levantamento das condições da via.

"Mas nunca vamos eliminar os riscos das estradas", afirmou, considerando que as estradas das ilhas montanhosas, como Fogo e São Nicolau, e das zonas interiores de Santiago, têm características que exigem medidas específicas de segurança.

O autocarro saiu da estrada e caiu numa ravina na zona de Campanas de Cima, no município de Santa Catarina do Fogo, provocando 25 mortos e 13 de feridos.

As autoridades deslocaram para a ilha equipas médicas, de emergência e de apoio psicológico, enquanto prosseguem os trabalhos para determinar as circunstâncias do acidente.

A maioria das vítimas eram estudantes e jovens, tendo o Governo decretado dois dias de luto nacional.