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Autonomia em falta

Paulo Freire nunca escreveu uma teoria sobre a autonomia política de um povo. Mas deixou-nos algo talvez mais profundo, uma reflexão sobre as condições que permitem a uma pessoa — e, através dela, a uma comunidade — deixar de ser objeto das decisões dos outros e tornar-se autónomo, sujeito da própria história.

Entre os muitos livros de Paulo Freire, Pedagogia da Autonomia talvez seja um dos que melhor nos interpela quando pensamos no futuro de uma comunidade, na relação povo – autonomia.

Paulo Freire denunciou a chamada “educação bancária”, onde alguém sabe, alguém ensina; alguém fala, alguém escuta; alguém decide, outros obedecem. O problema não é apenas pedagógico. É político. Uma sociedade que habitua os cidadãos a receber respostas, em vez de formular perguntas, dificilmente produzirá cidadãos capazes de decidir o seu próprio futuro.

A libertação começa, por isso, quando o indivíduo aprende a ler criticamente o mundo. Percebe que a realidade não é uma fatalidade, que as relações de poder têm uma história e que aquilo que parece inevitável pode ser transformado.

Em Pedagogia da Autonomia, Paulo Freire coloca o foco em como formar sujeitos capazes de pensar, decidir e assumir a responsabilidade pelas suas escolhas. Assim, a autonomia é a capacidade de decidir conscientemente, de fazer a história. Ou seja, um povo não pode ser verdadeiramente autónomo se os seus cidadãos não forem educados para a autonomia. Não basta possuir instituições próprias, eleger representantes ou reivindicar competências. A autonomia política será sempre limitada se uma comunidade não tiver capacidade para compreender criticamente a sua situação, discutir alternativas, produzir conhecimento sobre si própria e participar nas decisões que moldam o seu futuro.

É por isso que a passagem da autonomia do educando à autonomia coletiva pode ser pensada como um percurso: aprender a pensar; aprender a dialogar; aprender a decidir; aprender a agir; aprender a transformar.

A questão ganha especial importância quando falamos de povos e comunidades com uma identidade, uma história e interesses próprios. A autonomia densifica-se na resposta às seguintes questões: quem participa nas decisões que determinam quem somos e aquilo que queremos ser?

Na verdade, um povo pode ter liberdade formal e continuar dependente na economia, no conhecimento, na cultura ou na capacidade de definir prioridades. Pode possuir instituições e, ainda assim, permanecer politicamente oprimido.

A autonomia, de acordo com Paulo Freire, é outra coisa, é a autodeterminação construída por sujeitos conscientes.