"Solidariedade não é só um estado de alma"
Manter a Festa Luso-Venezuelana poucos dias depois dos dois sismos que atingiram a Venezuela não significa ignorar a tragédia. Pelo contrário. Para Ricardo Miguel Oliveira, director-geral e editorial do DIÁRIO de Notícias, realizar a 15.ª edição da iniciativa é uma forma de afirmar a esperança e, sobretudo, transformá-la em solidariedade concreta.
“Não podemos ser derrotistas ou deixar cair os braços, até porque não é isso que caracteriza a comunidade luso-venezuelana”, afirmou, defendendo que as circunstâncias não deveriam determinar o cancelamento de uma iniciativa que, há 15 edições, promove o encontro entre as duas comunidades.
Este ano, porém, esse encontro assume necessariamente outro significado. “Importava fazer na mesma esta Festa Luso-Venezuelana, apesar das circunstâncias, embora ela tenha agora um propósito que é celebrar a esperança”, disse.
Para Ricardo Miguel Oliveira, essa esperança implica uma responsabilidade que ultrapassa as fronteiras da Venezuela. «A Venezuela não conseguirá reerguer-se se não houver vontades colectivas em todas as comunidades espalhadas pelo mundo e se não houver expressões evidentes de solidariedade.»
E deixa uma das mensagens mais fortes desta edição: “Solidariedade não é só um estado de alma, é uma atitude concreta e permanente de perceber quem é que, em cada momento, precisa mais da nossa generosidade”
É com esse propósito que a iniciativa anual ganha este ano uma dimensão solidária, sem perder a sua identidade enquanto espaço de encontro e convívio entre quem regressou definitivamente da Venezuela, quem está na Madeira de férias e todos aqueles que mantêm uma ligação aos dois países.
O director-geral e editorial do DIÁRIO de Notícias recorda que há famílias que perderam praticamente tudo na sequência da catástrofe e que agora procuram reconstruir as suas vidas. “Aos poucos vão reerguendo aquilo que são as grandes certezas da sua existência: não vamos desistir e vamos avançar de novo para as lutas”, expressou esta tarde durante a abertura da Festa.
Uma reconstrução que, observa, não depende apenas da força de quem foi atingido. “As lutas precisam não só da boa vontade deles, dessa força de vontade que lhes está no sangue, mas precisam também da nossa atenção”, salientou ainda o director do DIÁRIO
Daí a «dupla dinâmica» desta 15.ª edição: promover o convívio e fazer com que esse mesmo convívio tenha “expressões práticas de generosidade”.
Ricardo Miguel Oliveira esclarece que não existe qualquer percentagem retirada aos negócios dos privados presentes no recinto. A componente solidária está associada ao merchandising oficial colocado à venda, sendo o valor correspondente contabilizado para posterior entrega ao Banco Alimentar da Venezuela.
A prioridade, considera, deve estar nas necessidades imediatas das populações afectadas. “É preciso muito esforço ao nível da engenharia para reprogramar o urbanismo das zonas afectadas, é preciso muito esforço de construção, mas, antes de tudo isso, é preciso comida para as pessoas, abrigo para as pessoas”.
Por isso, rejeita a ideia de que realizar a Festa Luso-Venezuelana neste contexto possa ser contraditório. «Seria um pouco hipócrita não fazer a festa quando nesta ilha, por todo o lado, há festas quase todos os dias, também com muitas pessoas da comunidade luso-venezuelana”, manifestou
A resposta, defende, passa por manter a tradição e dar-lhe um significado ainda maior: “Há que fazê-la, manter viva esta tradição que, mais do que um arraial, é um espaço de fraternidade, e dar-lhe uma dimensão solidária para que não se perca o essencial: a esperança”
Ricardo Miguel Oliveira considera ainda acertado o regresso da iniciativa à baixa da Ribeira Brava, espaço que entende ser o «mais natural» para acolher o evento, pela sua localização, segurança e integração na vila.
E deixa, por isso, um convite que resume o espírito pretendido para esta edição: “Acho que vale a pena passar por cá e contribuir”