1000 formas de quebrar a coluna vertebral
Tal como ficou famoso o programa 1000 formas de morrer, não duvido que estaria, igualmente, condenada ao sucesso a versão das 1000 formas de quebrar a coluna vertebral. Acontece por todo o lado, no dia a dia, onde o comum dos mortais, para sobreviver, tem de resistir, resistir, resistir, ou quebrar.
Hoje, por exemplo, há vários docentes contratados desanimados, diria mesmo prostrados, com dificuldade de levantar o olhar para o futuro, porque, simplesmente, lhes partiram a coluna vertebral profissional, ou, usando linguagem mais técnica, quebraram-lhes o vínculo à Secretaria Regional de Educação. É fácil de perceber: como não tiveram colocação anual, numa escola, até ontem (último dia do calendário escolar para a abertura das atividades letivas), todo o seu tempo de serviço prestado em anos letivos anteriores, para efeitos de vinculação, ou, como se dizia antigamente, para efetivar, voou aos quatro ventos. Bem podem dar aulas ao longo deste ano letivo que, para esse efeito, é igual a zero. São necessários três anos completos sucessivos. Se tinham um ou dois, agora, têm zero. São contas de somar que viram de subtração, numa matemática de difícil compreensão para quem não frequenta os meandros do poder.
No SPM, não compreendemos esta lógica de usar e deitar fora, em qualquer momento, mas sobretudo num período em que a falta de docentes atinge grande parte da Europa e, praticamente, todo o território nacional, quer continental, quer insular. Não se percebe, por isso, que, em vez de se procurar fixar os docentes mais novos ao sistema educativo regional, garantindo um corpo docente para as próximas décadas, se opte por descartar a troco de custos incomensuráveis, sim, porque, se a curto prazo se podem poupar uns cêntimos, a médio e longo prazo, é um desastre: concursos de professores desertos; alunos sem aulas por períodos indeterminados; uma nova geração de alunos formados virtualmente e deslumbrados com uma IA cujos recursos usarão, sem qualquer espírito crítico, como se fossem seus.
No entanto, há também docentes dos quadros (“efetivos”) quebrados e aquebrantados, porque, de um momento para o outro, os senhores dos gabinetes resolveram esquecer as promessas de incentivos para os docentes que fossem colocados nas zonas mais carenciadas, porque mais afastadas do centro, e colocar à bruta, com graves prejuízos familiares e financeiros. Cumprissem a promessa dos incentivos que não faltariam candidatos para o Oeste ou o Norte! Os custos não são iguais em todos os lugares da ilha.
Hoje, estamos solidários com cada um dos docentes que, com a coluna vertebral partida, têm vontade de abandonar esta carreira ou de fugirem para onde os acolham de braços abertos. E não falta onde.
Por cá, continuaremos a luta pela dignificação desta carreira, condição imprescindível para uma educação de qualidade para todos.