Nunca são só palavras
Que espaço oferecemos a quem nos fala, se já temos tudo ocupado com certezas?
“Perguntei alguma coisa?”
Ela abriu os olhos, surpreendida e visivelmente perturbada.
Reconheci as duas amigas. Já tinha entrevistado a mais velha numa reportagem. Estávamos as três a sair do mercado. Uma levava um pequeno ramo de novelos azuis na cesta de vime. A outra reparou nele.
“Com tudo tão caro, ainda gastas dinheiro em flores? Daqui a uns dias estão no lixo.”
Foi esta observação que provocou a pergunta.
“Eu só queria ajudar”, respondeu.
As flores eram para a mesa da cozinha. Desde que vivia sozinha, a mulher habituara-se a comer de pé, junto ao lava-loiça. Naquela manhã, apetecera-lhe voltar a pôr a mesa.
A amiga não sabia, nunca tinha perguntado.
Conhecia-lhe alguns hábitos, sabia que vivia sozinha, até lhe perguntava pela saúde. Mas não sabia como eram os seus dias. Há coisas que só descobrimos quando damos à conversa tempo para sair das respostas habituais.
A preocupação com o dinheiro podia ser legítima. O que faltou ali foi curiosidade por aquela alegria. “Onde vais pô-las?” teria aberto uma conversa que o conselho não solicitado encerrou.
Também comunicamos na maneira como recebemos o entusiasmo de alguém. No tempo que lhe damos para acabar uma frase. Na atenção com que percebemos que deixou de sorrir depois do nosso comentário.
Nesta cena cabe o que tantas vezes nos escapa: falar é uma coisa. Comunicar exige mais de nós.
Podemos trocar mensagens durante um dia inteiro e chegar à noite sem saber como o outro está. Até numa amizade de muitos anos, a familiaridade pode levar-nos a perguntar menos, convencidos de que já conhecemos as respostas.
Antes de abrir a boca, podemos começar por escutar a nossa intenção. Quero esclarecer ou provar que tenho razão? Quero aproximar-me ou fazer o outro sentir a dor que me causou? Estou a pedir atenção ou a castigar a sua ausência?
A resposta, às vezes, dói. Mas reconhecer o que nos move permite escolher o que fazer a seguir.
E outra pergunta: a partir de onde, dentro de mim, estou a falar?
Por vezes, uma interrupção toca em anos de não nos sentirmos escutados, vistos e reconhecidos. Uma discordância parece confirmar que não somos valorizados. Um silêncio transforma-se numa certeza: “Não quer saber de mim.”
Pode ter havido silêncio, sim, só que o significado foi acrescentado por nós.
O que pensamos saber sobre o outro inclui memórias, expectativas e interpretações nossas.
Tendemos a olhar para os outros e a acharmos que já sabemos previamente o que eles vão dizer.
O cérebro não recebe cada conversa como se fosse a primeira. O que vivemos antes influencia a forma como interpretamos o presente. Quando sentimos uma situação como ameaçadora, a atenção pode estreitar-se e torna-se mais difícil considerar outras perspetivas.
Sentimos como a tonalidade da nossa voz se altera, como o corpo fica tenso e a resposta chega antes da pergunta.
Uma pausa pode fazer a diferença. Sentir os pés no chão, deixar a respiração abrandar, oferecermos a nós mesmos alguns segundos antes de entregar às palavras aquilo que ainda estamos a tentar compreender.
O que estou realmente a sentir? O que preciso que esta pessoa saiba?
“Nunca me ouves.”
“Só pensas em ti.”
Há palavras que transformam um episódio numa condenação. O “sempre” apaga as exceções. O “nunca” fecha a possibilidade de as recordar. E o outro começa a defender quem é, enquanto aquilo que nos magoou fica por dizer.
Procuremos o momento concreto. O que vimos, sem acrescentar uma intenção que não confirmámos?
“Enquanto te contava uma coisa importante para mim, continuaste a olhar para o telemóvel. Senti-me não visto. Gostava de ter a tua atenção, olhos nos olhos. Podemos falar agora?”
Dizer o que aconteceu, o que sentimos e aquilo de que precisamos. Fazer um pedido claro, em vez de esperar que o outro adivinhe o que ainda não conseguimos nomear.
Também podemos dizer: “Quero ouvir-te, e preciso que conversemos sem insultos.”
A firmeza cabe no respeito, o carinho não obriga a ceder. E um pedido precisa de deixar espaço para uma resposta, incluindo aquela que não desejávamos ouvir.
Não há palavras capazes de garantir o encontro. Podemos perguntar: “Como recebeste o que te disse?” Podemos corrigir, esclarecer, pedir desculpa. A intenção de ajudar não nos dispensa de reconhecer que magoámos.
“A escuta é já, por si, um modo de cuidar”, ouvi dizer a Tolentino Mendonça. Estas palavras ressoaram fundo no meu coração.
Escutar pede que deixemos algum lugar livre, onde o outro possa chegar sem encontrar a sua história decidida por nós.
Naquela mesa, os novelos azuis foram muito mais do que flores. Foram a vontade de voltar a sentar-se à mesa da própria vida. E isso não tem preço.