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Último eclipse solar total em Portugal, em 1912, animou sociedade nacional e atraiu astrónomos estrangeiros

Populares assistindo ao eclipse em Ovar. 
Populares assistindo ao eclipse em Ovar. , Foto Arquivo/DR

O último eclipse total do Sol observado em Portugal aconteceu há mais de 100 anos, em 1912, quando já não havia quem acreditasse em "monstros que assaltam os astros", mas atraiu astrónomos de vários países.

Uma brochura publicada pelo Real Observatório Astronómico de Lisboa na Real Tapada d'Ajuda em vésperas do dia 17 de abril de 1912 referia que "todas as pessoas instruídas" conheciam a "teoria" dos eclipses e que as restantes já não tinham, "pelo menos, a ideia de uma serpente monstruosa espreitando o movimento dos astros e assaltando-os na passagem".

Segundo o folheto, "em Lisboa, o fenómeno não tem atrativos", pois o eclipse solar total [quando a Terra, a Lua e o Sol estão perfeitamente alinhados e a Lua oculta completamente o disco solar por alguns momentos] só poderia ser observado "na região da centralidade".

"Aqueles que o acaso levar" à zona, no norte de Portugal, "talvez tenham a sorte de admirar um dos espetáculos mais emocionantes que a Natureza nos proporciona", referia a brochura, acrescentando que "a aliança do astro do dia com o astro da noite alguma coisa de sublime devia realmente produzir".

O astrónomo historiador de ciência Luís Tirapicos explica no artigo "Eclipses totais do Sol em Portugal: de 1900 a 1919" que se tratou de um eclipse híbrido, "simultaneamente total e anular [quando a Lua parece ligeiramente menor, deixando visível um anel de luz à volta]", dependendo do ponto de observação. "O eclipse foi total na parte central da faixa percorrida pela sombra da Lua -- na península Ibérica -- e anular nos extremos dessa faixa".

O cientista diz que o fenómeno foi "registado por um dos pioneiros da astrofísica em Portugal", o astrónomo Francisco da Costa Lobo, que se deslocou a Ovar com um grupo de alunos da Universidade de Coimbra.

Um artigo da revista Occidente (1878-1915) citado no bloque Restos de Coleção indica que Costa Lobo esteve envolvido na "observação mais original ocorrida em Ovar" realizada "na estação principal portuguesa na quinta do Sr. João Bernardino, em S. Miguel" e precisa que o tenente Nogueira Ferrão, que o jornal Comércio do Porto descreve como "habilíssimo photographo-amador e que ultimamente se tem dedicado, com muito êxito, à cinematografia", adaptou uma câmara de filmar ao telescópio da Universidade de Coimbra para "reproduzir todas as fases do eclipse".

Assim foi "realizado aquele que é considerado o primeiro filme científico português".

A 17 de abril de 1912, dois dias depois do naufrágio do transatlântico Titanic, estiveram em Ovar ou nas redondezas expedições da Rússia, Inglaterra e França e "as condições favoráveis, como documentou a imprensa da época, nomeadamente a Illustração Portugueza [revista editada pelo jornal O Século], "permitiram também a um grande número de populares a fruição do eclipse", recorda Tirapicos.

Enquanto o blogue refere que "o interesse pela observação do fenómeno levou a CP - Companhia de Caminhos de Ferro Portugueses a organizar comboios especiais para Ovar", um texto da revista Timeout lembra que "muitos milhares de lisboetas foram para a rua a olhar para o céu" e que muitos outros observaram o eclipse "nas varandas dos prédios e das casas (...) uns a olho nu, outros recorrendo a proteções várias para a vista".

Uma fotografia publicada pela Illustração Portugueza mostra pessoas num passeio em Lisboa a olhar para o sol através de "vidros fumados".

No entanto, assinala o texto do blogue, "o eclipse solar observado em 28 de maio de 1900 gerou maior entusiasmo" e "cerca de 25.000 pessoas, entre as quais os príncipes D. Luís Filipe e D. Manuel, foram a Ovar para assistir ao fenómeno".

O astrónomo amador inglês George Chambers (1841-1915), num relato citado por Tirapicos, conta: "Em maio de 1900 fomos a Portugal ver um eclipse total do Sol, na qualidade de membros da Associação Astronómica Britânica" e descreve o interesse dos portugueses.

"Ficámos bastante surpreendidos por ver o interesse que despertava o eclipse na gente do povo português, que não supúnhamos muito estudiosa. Pois interessou-se imenso antes do fenómeno, durante ele e depois. Pode avaliar-se a animação popular pelo facto de que circularam comboios cheios de excursionistas não só de Lisboa para Ovar e Porto, viagem direta e curta, mas de Lisboa para Viseu".

"(em Ovar) vimos os milhares e milhares de homens e mulheres do povo que nos esperavam, achámos excelente ideia o terem-nos posto à disposição a força armada para manter a ordem nas ruas e impedir que a multidão invadisse os lugares que nos eram concedidos para ali montarmos os nossos instrumentos e realizar as observações".

No caso do eclipse de 1912, a Occidente relata também que "em Penafiel, deu-se o eclipse anular (...). Os centros do Sol e Lua coincidiram, ficando apenas visíveis os dois pontos luminosos situados um pouco acima dos extremos do diametro horisontal".

Além do filme de Nogueira Ferrão, foram feitos a 17 de abril de 1912 alguns pequenos filmes sobre o fenómeno e, "algumas semanas depois, no dia 11 de Maio, estreava-se em Lisboa no Chiado Terrasse e no Salão Central O Eclipse do Sol em Lisboa, da produtora Lusa Film", indica a Timeout.

A Ciência Viva -- Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica, que organizou numerosas iniciativas relacionadas com o eclipse do Sol da próxima quarta-feira, assinala que "o último eclipse total do Sol observado em Portugal aconteceu em 1912 e o próximo será em 2144, tornando o Eclipse de 2026 num momento imperdível para várias gerações".

Observar o Sol completamente tapado pela Lua só será possível em Portugal numa pequena zona do Parque Natural de Montesinho, no Nordeste Transmontano, mas a alta percentagem de obscurecimento, entre 92% e 99% no território continental e 74% a 77% nas ilhas dos Açores e da Madeira, permite, segundo o astrónomo Rui Jorge Agostinho, que as pessoas experimentem "aquilo que acontece durante um eclipse deste género".

Ou seja, sentirão "a temperatura abaixar", referiu em declarações à agência Lusa o investigador, acrescentando que quando o sol desaparece "a temperatura média no ar responde imediatamente".

Além disso, "porque o sol está tapado, os animais à volta respondem e acolhem-se aos locais onde costumam pernoitar ou descansar".

Na referida zona do parque de Montesinho, no dia 12, "durante cerca de 26 segundos, o dia transforma-se em noite", mas o fenómeno astronómico inicia-se às 18:33 e termina às 20:23, com o seu máximo previsto por volta das 19:30, indicou a agência de divulgação científica.