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Estrangeiros na nossa própria terra

O grande crescimento descontrolado do turismo sem o aumento das infraestruturas necessárias de acolhimento faz com que, muitas vezes, nos sintamos estrangeiros na nossa própria terra.

Não estou a falar no acolhimento de dormidas, mas sim da presença descontrolada nos espaços públicos, desde o mar à serra. Algumas vezes já dei por mim a pensar se quem planeia receber tanta gente num espaço tão pequeno já pensou nos residentes e nas suas necessidades de relaxamento e silêncio que a nossa natureza nos permitia ter e aos quais já estávamos habituados há muito tempo.

Turistas sempre recebemos, desde que eu me lembro de ser gente. Mas havia um equilíbrio harmonioso. Apreciávamos receber e partilhar os nossos espaços pois cabíamos neles sem qualquer contratempo. Muitas vezes até aprendíamos pequenas frases em várias línguas para podermos comunicar uns com os outros e havia espaço para toda a gente.

O que aconteceu para que tudo isto hoje esteja posto em causa? Quem é que decidiu fazer da nossa terra um espaço para ser ocupado por quem nos visita, retirando-nos o direito ao que é nosso? Quem planeou – se realmente houve planeamento – a ocupação dos espaços da natureza e as ruas da cidade, onde quase nos atropelamos para poder atravessar uma passadeira e temos dificuldade em desfrutar do silêncio necessário para mantermos a nossa vida com um mínimo de qualidade? Alguém pensou que os espaços públicos são em primeiro lugar do povo que aqui vive e reside que, com muito orgulho, sempre soube partilhar com quem sempre nos visitou numa harmonia natural, sem atropelos?

A quem serve este descontrolo sem necessidade, a não ser o ter uma “indústria” à volta do turismo, sorvendo o máximo de lucros, sem pensar minimamente que a destruição da natureza e dos espaços públicos tem grandes implicações com a nossa qualidade de vida e como tal com a nossa saúde?

Se este mundo evoluir ainda mais para uma situação bélica a nível mundial, vamos viver do quê? O turismo vai diminuir e as nossas necessidades básicas vão ficar dependentes, na maior parte do que precisamos, da boa vontade do exterior. Gostamos de fingir que temos uma situação económica mais favorável, que o nosso PIB está saudável, mas continuamos a apostar apenas num setor, descurando as indústrias produtoras que são as que podem nos alimentar numa situação de crise maior.

Até já tivemos algumas que foram falindo porque, na visão dos governantes, eram de “terceiro mundo” e, por isso, não interessava manter abertas. Lembro-me das fábricas de conservas, da fábrica dos lacticínios, onde produzíamos leite, manteiga, queijo, iogurtes, etc... Tudo foi substituído pelo turismo e todos os negócios ao seu redor. A agricultura poderia ter sido mais apoiada e hoje poderíamos ser menos dependentes da comida importada. A pesca devia ser em primeiro lugar para alimentar os residentes, mas o melhor peixe é canalizado diretamente para os hotéis e nós ficamos com as sobras, que pagamos a preço de ouro e ainda, muitas vezes, temos que recorrer aos congelados importados.

O desenvolvimento tem sido estruturado às avessas e, por isso, é que estamos nesta situação que um dia vai ter que rebentar porque o descontentamento é já muito grande. Queremos continuar a ser uma Região que recebe bem quem nos visita, mas queremos em primeiro lugar, viver numa terra que pensa no bem-estar dos seus residentes. Conciliar estas duas vertentes é urgente, antes que seja tarde demais.