E se fôssemos obrigados a voltar atrás?
A humanidade percorreu um longo caminho até construir a sociedade que hoje conhecemos. Ao longo de milhares de anos, conquistámos conhecimento, desenvolvemos a ciência, a tecnologia, a medicina, os transportes, as comunicações e elevámos a esperança e a qualidade de vida a níveis que os nossos antepassados dificilmente imaginariam.
Mas a verdadeira evolução não se mede apenas pelo progresso material. Mede-se também pelos valores que fomos conquistando: a dignidade da pessoa humana, a liberdade, os direitos fundamentais, a educação, a justiça, a solidariedade e a capacidade de cooperar para resolver problemas comuns.
O filme “Os Deuses Devem Estar Loucos” (1980), de Jamie Uys, utiliza uma simples garrafa de Coca-Cola para mostrar como um objeto da civilização moderna pode transformar profundamente uma comunidade isolada. Através do humor, o filme leva-nos a refletir sobre o impacto do progresso, do consumismo e da mudança cultural.
Quase meio século depois, talvez fosse ainda mais interessante imaginar o contrário. E se a humanidade fosse obrigada a regressar ao passado? E se, de um dia para o outro, desaparecessem a eletricidade, a Internet, os hospitais modernos, os satélites, os automóveis, os telemóveis e todas as comodidades que hoje consideramos indispensáveis?
Já pensaram na possibilidade de que; será que algum país, algum povo já experimentou essa sensação? Dificilmente aceitaríamos viver como os nossos antepassados. Não porque sejamos menos capazes, mas porque a nossa forma de pensar foi moldada por séculos de evolução. Aprendemos a depender da tecnologia, do conforto e da rapidez. O que hoje consideramos básico era, há apenas algumas gerações, um luxo inimaginável. Talvez conseguíssemos reconstruir o mundo, mas nunca voltaríamos a olhar para a vida da mesma forma. A experiência adquirida impedir-nos-ia de ser verdadeiramente “primitivos”. O conhecimento não desaparece apenas porque desaparecem os meios materiais.
Contudo, esta reflexão deixa-nos outra questão igualmente importante: será que evoluímos ao mesmo ritmo nos valores e no caráter? Temos mais conhecimento do que nunca, mas somos mais felizes? Temos mais meios de comunicação, mas comunicamos melhor? Vivemos mais tempo, mas vivemos com mais sentido de comunidade, responsabilidade e respeito pelo próximo? Talvez a maior lição não seja regressar às origens, mas perceber que o verdadeiro progresso acontece quando a evolução tecnológica caminha ao lado da evolução humana. De pouco serve conquistar o mundo se perdermos os valores que dão sentido à nossa existência.
O futuro não depende apenas daquilo que somos
capazes de inventar, mas da sabedoria com que utilizamos as conquistas da civilização. Evoluir não é apenas avançar na tecnologia; é também crescer em humanidade. Esse continua a ser o maior desafio da nossa geração.
A. J. Ferreira