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Crónicas

Voltar a casa

Eu voltei para a casa da qual tive saudades durante 26 anos e isso é estranho de muitas maneiras

Quando subi a entrada e a casa do Laranjal passou de memória a morada definitiva, não sabia ainda que esta não era apenas uma mudança, uma parecida às outras, em que se mete os livros dentro de caixas, a roupa nas malas e uma empresa carrega e descarrega os móveis. Embora seja confuso e não se consiga encontrar o que se procura por uns tempos, o lugar é outro, é novo e, mais depressa do que se espera, há uma rotina que o transforma em lar. O cheiro da comida ao lume e o sítio onde, todos os dias, pousamos a carteira e as chaves, a manta sobre o sofá que guarda o nosso perfume dão vida às casas que habitamos, mas, desta vez, é diferente.

Eu voltei para a casa da qual tive saudades durante 26 anos e isso é estranho de muitas maneiras. Por muitos anos e, de cada vez que me sentia triste, bastava fechar os olhos e lembrar-me do meu quarto para o que quer que me estivesse a aborrecer parecer menos mau. Se fosse mesmo mau, se me apertasse muito o coração, a memória trazia-me a minha mãe e o meu pai como aconchego. E, com o correr do tempo, a saudade esqueceu os defeitos e transformou a casa que o meu pai levou 20 anos a construir num sítio quase mágico, afinal estas paredes guardam a primeira vez que me apaixonei e a primeira vez que chorei por amor.

Foi daqui que saí para a faculdade e era para aqui que regressava das sessões de quimioterapia no hospital. É a mesma casa que, de um dia a outro, ficou vazia e fria com a morte da minha mãe, a mesma que deixei para trás quando fui viver para a África do Sul e, depois, quando decidi que estava na hora de tentar tudo o que tinha planeado ser, enquanto crescia e via os autocarros a fazer a curva. A mesma que ficou sem portão duas vezes quando o ribeiro encheu e onde chorei, desamparada, quando percebi que o meu pai estava a morrer. A dor que me atravessou nessa noite veio dali, dos quartos vazios, do cão na rua, confuso, do quintal banhado pelo luar.

Do ribeiro vinha já um ar fresco, lembro-me da noite de estrelas e luar que, aqui, são sempre bonitas, e de ter vagueado entre o alpendre e a sala, sem saber como ia ser tudo dali em diante. O que íamos fazer do legado do meu pai, o que ia ser de todas as minhas memórias e se seria capaz de as enfrentar agora que ele já não estava, com o seu sorriso grande e feliz por me ver. A dor era também um sopro de vento árido, que é mais ou menos o que se sente quando o último dos nossos pais se vai. Não me lembro de ter pensado em mudar-me, não sei bem se pensei muito nos anos que se seguiram.

Só não perdi tudo o que me liga a esta casa. Não é um palácio e, no Inverno, o frio chega aos ossos, mas acordar com o rumor da água a correr no ribeiro e ouvir, de longe a longe, um cão a ladrar é ter de novo 15 anos e acreditar que o futuro será brilhante. Ou ouvir o som da novena da festa de Nossa Senhora da Visitação ao jantar e perceber que estamos no fim de Julho, que é Verão, há ameixas maduras e a água do mar pede mergulhos, esse mar que vejo de cima do mesmo terraço onde sonhei tudo e o seu contrário. E é olhar-me ao espelho e procurar por esses sonhos na pessoa que sou.

Quando fechei a porta da entrada (ou a porta do caminho como se dizia antes) em Fevereiro não sabia ainda que voltar a casa é mais do que boas ou más memórias, é ver quem somos e o que fizemos com isso.