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O tempo que um dia será de todos nós

Há uma verdade que nos une a todos, independentemente da profissão, da idade ou da condição social: o tempo nunca deixa de avançar, é a única unidade verdadeiramente real.

Vivemos numa sociedade que celebra a juventude, a autonomia e a produtividade. Aprendemos a estudar, a trabalhar, a construir uma carreira e uma família. Durante décadas somos, na maioria das vezes, capazes de conduzir a nossa própria vida com independência. Mas existe um momento, normalmente a partir dos 70 ou 75 anos, embora diferente para cada pessoa, em que alguns ou muitos começam a precisar de algo que sempre deram aos outros: ajuda.

Não é um desistir. Não é uma exceção. É a expressão mais natural da condição humana.

Paradoxalmente, nunca vivemos tanto. A esperança média de vida continua a aumentar, a medicina permite controlar doenças que antes eram fatais e milhares de pessoas vivem mais anos. Mas esta extraordinária conquista traz consigo uma responsabilidade coletiva: preparar uma sociedade capaz de cuidar.

É aqui que surge um dos maiores desafios das próximas décadas.

Continuamos a pensar que a resposta estará apenas na construção de mais hospitais, mais lares ou mais estruturas residenciais. Essas respostas serão importantes, mas nunca suficientes. A realidade demográfica mostra-nos que nenhuma sociedade conseguirá construir infraestruturas em número capaz de acompanhar o ritmo do envelhecimento da população. A resposta terá, inevitavelmente, de ser mais humana do que arquitetónica.

Vamos precisar de famílias mais apoiadas, de vizinhos mais presentes, de comunidades mais próximas, de empresas mais sensíveis, de políticas públicas mais inteligentes e de cidadãos mais disponíveis para cuidar uns dos outros.

Vamos a meu ver, acima de tudo, precisar de recuperar a cultura da interajuda.

Ao mesmo tempo, temos outra responsabilidade que começa muito antes da velhice: investir na prevenção. Cada caminhada feita hoje, cada refeição equilibrada, cada noite bem dormida, cada músculo preservado, cada relação social mantida e cada momento dedicado à saúde mental são investimentos que diminuem a dependência futura.

Promover hábitos de vida saudáveis não é apenas aumentar anos de vida. É aumentar anos de autonomia.

Atrasar a fragilidade, significa menor pressão sobre as famílias, sobre os profissionais de saúde e sobre as respostas sociais. A verdadeira sustentabilidade não nasce apenas da capacidade de tratar a doença; nasce da capacidade de preservar a funcionalidade.

Mas mesmo vivendo de forma exemplar, ninguém escapa ao tempo.

E talvez seja precisamente esta consciência que nos transforme em melhores seres humanos.

Porque todos nós, sem exceção, poderemos um dia ser a pessoa que espera uma visita, uma chamada telefónica, uma mão que ajude a levantar, alguém que oiça uma história repetida pela décima vez ou simplesmente alguém que esteja presente.

A forma como tratamos hoje os mais idosos é, na verdade, a forma como estamos a desenhar a sociedade onde nós próprios iremos viver amanhã.

O envelhecimento não deve ser visto como um problema de alguns. É um destino provável de quase todos.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja quantos anos vamos viver.

A verdadeira pergunta é: que sociedade queremos encontrar quando chegar a nossa vez?

Porque o tempo, esse, nunca escolhe ninguém. Apenas nos convida, todos os dias, a decidir que legado queremos deixar aos que caminham ao nosso lado e aos que um dia caminharão por nós.