A descida do CabazRAM não significa poupança de 6% na conta do supermercado?
Ontem, o Governo Regional destacava a descida de 6% no custo mensal do cabaz alimentar na Região, o CabazRAM, de Julho para Agosto, passando de 82,53 euros para 77,57 euros.
A informação replicada pelos diferentes órgãos de comunicação social rapidamente gerou várias reacções, umas notando, ainda assim, o aumento do custo de vida para os madeirenses, outras questionando os locais onde era feita a verificação dos preços. Um dos comentários de um leitor do DIÁRIO apontava que essa descida não se aplicava a todos os produtos e outro afirmava que o decréscimo anunciado “não significa que uma família poupa 6% na sua factura do supermercado”.
É precisamente esta última afirmação que vamos aqui verificar.
Desde o mês de Abril que a Secretaria Regional de Economia, através da Direcção Regional do Comércio, Indústria e Qualidade, procede ao acompanhamento sistemático da evolução do custo de bens essenciais, através do designado CabazRAM - Observatório de Preços da Região Autónoma da Madeira.
Foi definido um cabaz com 26 produtos, considerados bens de primeira necessidade. Nesse conjunto incluem-se pão (papo-seco), arroz, massa (esparguete), farinha, leite (meio gordo), queijo (fatia, embalagem 200 gr), manteiga, ovos (uma dúzia, classe M), azeite (virgem extra 0,75ml), óleo, conservas (atum em azeite), açúcar, hortícolas (batata, cebola, cenoura, tomate), fruta (maçã golden e banana), leguminosas (grão-de-bico em lata, feijão manteiga em lata), carne de bovino refrigerada (chã de fora, alcatra), carne de suíno refrigerada (lombo de porco sem osso), outras carnes refrigeradas (frango e peito de peru).
Governo Regional destaca que o preço do cabaz alimentar essencial na Madeira recuou 6% em Agosto
Executivo madeirense diz que se trata do valor mais baixo desde Abril
João Filipe Pestana , 19 Agosto 2026 - 17:11
O preço desse conjunto de alimentos tem sofrido oscilações ao longo dos últimos meses. Em Abril estava nos 84,12 euros, passado para 84,20 euros em Maio. Desceu para 82,27 euros em Junho e aumentou para 82,53 euros em Julho. Este mês, como noticiado, o decréscimo foi de 4,96 euros, totalizando 77,57 euros, o que se traduz nos já referidos 6% a menos no preço global do cabaz.
Além das dúvidas sobre o significado deste valor e sobre a forma como os preços são recolhidos, uma das questões apontadas partia de uma aparente contradição, nomeadamente se alguns produtos ficaram mais caros, como é que o cabaz pode ter descido 6%?
O CabazRAM é um indicador ponderado e os diferentes produtos não têm todos o mesmo peso no resultado final. O próprio Governo Regional esclarece que houve produtos que subiram e outros que desceram, uma variação que pode sofrer alterações a cada mês.
Trata-se, pois, de uma ‘ferramenta’ permite medir a evolução do preço do conjunto específico de produtos, mas não corresponde à factura mensal de supermercado de uma família, nem permite concluir que todas as famílias tenham poupado 4,96 euros.
A primeira razão está na própria composição do indicador. O CabazRAM reúne 26 produtos, aos quais são atribuídos diferentes pesos. A carne representa 54,07% do valor do cabaz e registou uma descida de 8,03% entre Julho e Agosto, tendo por isso um impacto muito significativo na redução final. Outros produtos, pelo contrário, ficaram mais caros, nomeadamente a farinha que aumentou 26,52% e a fruta que subiu 3,92%.
Assim, os 4,96 euros de redução correspondem à diferença entre o custo dos 26 produtos considerados e não a uma poupança que possa ser directamente aplicada à generalidade das compras das famílias. Uma família que compre mais carne poderá beneficiar mais da descida registada pelo indicador, enquanto outra que tenha um consumo diferente poderá sentir uma evolução distinta. O mesmo acontece com quem compra outras marcas, outros produtos ou em estabelecimentos diferentes.
Há ainda outra limitação. Os preços que ‘alimentam’ actualmente o CabazRAM são recolhidos em apenas dois estabelecimentos comerciais no Funchal. O próprio Governo Regional enquadra o indicador numa fase piloto e reconhece que os resultados não são estatisticamente representativos de toda a Região. Ou seja, os 77,57 euros correspondem ao preço daquele cabaz nos estabelecimentos abrangidos pela metodologia, não podendo ser automaticamente transformados numa estimativa da despesa média de uma família madeirense.
Também as promoções podem influenciar a evolução mensal. A metodologia considera o preço efectivamente pago quando existe um desconto directo, pelo que uma promoção disponível no momento da recolha pode contribuir para a descida do valor do cabaz. Para determinar em que medida os 4,96 euros correspondem a uma redução estrutural dos preços ou a alterações pontuais, seria necessário conhecer, produto a produto, os preços recolhidos no período em análise, neste caso, de um mês para outro, e identificar quais estavam em promoção. Algo que não é possível fazer com a informação tornada pública.
Há, por isso, uma diferença importante entre dizer que “o CabazRAM ficou 4,96 euros mais barato” e afirmar que “uma família madeirense poupa 6% na sua factura do supermercado”. A primeira afirmação é directamente sustentada pelos dados divulgados. A segunda não pode ser retirada desses dados sem conhecer os hábitos de consumo das famílias e sem uma amostra mais abrangente dos locais onde são efectuadas as compras.
O CabazRAM é, ainda assim, pode ser útil para acompanhar a evolução de determinados preços alimentares. A questão está no alcance que se dá ao seu resultado. Uma descida de 6% num cabaz de 26 produtos é uma indicação de que esse conjunto de bens ficou mais barato segundo a metodologia definida, mas não constitui uma medição directa da evolução da despesa alimentar das famílias madeirenses.
Perante o exposto, considera-se verdadeiro que os 4,96 euros de redução são reais no âmbito do CabazRAM. Não é, contudo, possível afirmar que cada família madeirense tenha poupado esse valor ou que a sua factura de supermercado tenha diminuído 6%. O CabazRAM mede um conjunto específico de 26 produtos, com pesos diferentes, recolhidos actualmente em dois estabelecimentos do Funchal. É, por isso, um indicador da evolução daquele cabaz e não uma medição directa da poupança efectivamente obtida pelas famílias madeirenses.
Por conseguinte, considera-se verdadeira a afirmação do leitor ao apontar que “isso não significa que uma família madeirense poupa 6% na sua factura do supermercado”.