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Antes que seja tarde

Este artigo já esteve pelo menos uma dezena de vezes pronto para ser publicado. No entanto, o fenómeno que lhe dá corpo tem permitido que a sua publicação seja sucessivamente adiada. A forma como Cristiano Ronaldo tem prolongado a sua vida desportiva, transformando talento em marca e marca em audiência, é incrível. Aos 41 anos faz aquilo que eu não conseguia fazer aos 25 - a minha melhor fase do ponto de vista físico - aliando a tudo isso uma inacreditável fome de vencer. Para Cristiano todos os Dias são o primeiro.

Aquilo que aqui se pretende destacar não são os feitos, esses são sobejamente conhecidos. O que se pretende destacar são, essencialmente duas coisas: dificilmente haverá algum português no mundo mais bem-sucedido nos próximos 200 anos do que Cristiano quer no futebol, quer no que influencia, em tantas áreas, para além daquela a que se dedica; segundo, como o País, no seu todo, não respeita o legado dos seus heróis, procurando tirar apenas as vantagens que estes lhes oferecem.

Sobre o primeiro aspeto, Cristiano é planetário. Se quisermos olhar apenas para o impacto da sua saída da seleção nacional, podemos constatar que a sua saída do estágio da seleção provocou uma perda de cerca de 10% do número total de seguidores da página da Federação Portuguesa de Futebol no Instagram. Mas houve um efeito mais devastador: quando Portugal partiu na passada quinta-feira para o estádio onde defrontou a Dinamarca, estavam lá 5 pessoas para apoiar a seleção portuguesa. Dois dias antes eram dezenas aqueles que cercaram aquele hotel para ver Cristiano. Alguém acredita que haverá, em qualquer outra área, português igual?

Cristiano não se esgota no desporto, é muito mais do que isso. Recentemente diversos países- sobretudo do pacífico- votaram em Portugal para o Conselho de Segurança das Nações Unidas porque Portugal era o país de Cristiano. Uns gabavam a sua capacidade de trabalho, outros a sua dedicação à família, mas o denominador comum era Cristiano. E para isso pouco interessou o trabalho da diplomacia portuguesa ou a nacionalidade do atual Secretário-Geral da ONU. Talvez a distância do tempo, nos dê verdadeiramente a dimensão do feito e dimensão de vida de Ronaldo: um jovem que aos 12 anos saiu de uma ilha com 250 mil pessoas, enfrentou a solidão e a saudade pelo sonho de concretizar o seu talento de dar uns toques na bola e tornou-se, simultaneamente, a marca global mais seguida no mundo, a ponto de influenciar decisões políticas de estados estrangeiros. Incrível, já vi séries da Netflix por muito menos!

Num mundo em que o IA e as redes sociais se confundem, onde as pessoas são mais algarismos que seres humanos, admito que isto até pareça fácil. Mas se é assim tão fácil porque não se formam por aí “Ronaldos” aos pontapés? Se este trajeto não merece consideração pessoal, respeito e recato na forma como se fala de Cristiano- mesmo que se possa discordar do rendimento desportivo para continuar entre os eleitos da seleção nacional ou da assertividade do seu abandono- o que merecerá?

No legado de Cristiano ficará a vitória contra a Suécia em novembro de 2013, a preponderância contra a Hungria em 2016, o empate contra a Espanha em 2018 onde foi absolutamente decisivo, ou a sua preponderância em 2019 em toda a fase de play-off da Nations League, mas há uma coisa que o seu legado evidenciou: a cultura de aproveitamento reinante em algum dirigismo nacional, transversal a todas as áreas, onde o futebol não é exceção.

A postura de Pedro Proença é reveladora da cobardia e chico-espertismo de que enfermam alguns dirigentes nacionais: sugerir que não interfere nas opções técnicas entre jogador e treinador quando todos sabem que se deslocou de emergência a Copenhaga é procurar passar um atestado de estupidez aos portugueses; dizer que as portas continuam abertas ao Capitão da Seleção e que tudo não passa de um mal-entendido é passar um cheque em branco a outros jogadores para fazerem o mesmo. O exemplo de um líder não vem do estatuto que confere a algum dos seus, vem dos limites que a sua hierarquia consegue impor.

Seria muito mais honesto afirmar: Cristiano mantém-se na seleção sobretudo por aquilo que ainda representa e dá a ganhar, financeiramente, à Federação Portuguesa de Futebol. Cristiano pode já não fintar o que fintava, finalizar como finalizava, nem tampouco correr o que corria, no entanto marca, noutros campos, mais do que o suficiente para sustentar a megalomania de quem dirige a Federação. Esse é o motivo pelo qual continuam a precisar dele. E é isso que precisa de ser dito, a bem da verdade e do respeito que duas décadas de sacrifício de Cristiano merecem de todos nós.