Ehhh…
A vida é o que é. E o que é que fazemos com isso?
Há pessoas que são verdadeiros laboratórios humanos. Acumulam uma sabedoria que nenhum livro consegue reproduzir por inteiro: vida vivida. A minha sogra é uma delas.
Aos 74 anos, Fernanda é mãe de cinco filhos, avó de três netos e ganhou mais duas netas emprestadas, as minhas filhas. É doce, meiga, serena. Sem vocação para queixumes. Tem o dom raro de tornar o mundo mais tranquilo. Durante anos a fio, foi professora do ensino básico. Muitas crianças, muitas famílias, muitas personalidades, muitos desafios, muitas formas diferentes de crescer em vários países. Uma vida a observar, escutar, orientar, ensinar e, inevitavelmente, a aprender também.
Vivemos a 2.500 quilómetros uma da outra, ela em Londres, eu na Madeira, mas falamos todos os dias. Sobre a família, os filhos, os netos e essa responsabilidade imensa de guiar alguém a crescer sem lhe roubar o direito de descobrir o próprio caminho. Pergunto-lhe muitas vezes o que pensa. Peço-lhe orientação e conselhos. E gosto muito de a escutar.
Quanto mais conversamos, mais percebo que há princípios aos quais regressa sempre. Uns sempre fizeram de si mesma, outros foi aprendendo pelo caminho. Até hoje.
O primeiro é o amor incondicional. Sempre.
Podemos não gostar de uma escolha, reprovar um comportamento, zangar-nos. Mas uma criança nunca deve sentir que o amor depende daquilo que faz. Corrige-se o comportamento. O vínculo não se põe em causa.
Depois vêm os limites. Com amor e consciência. E não necessariamente os mesmos para todos. O que uma criança precisa num determinado momento pode ser diferente do que precisa o irmão. E aquilo de que necessita hoje pode não servir amanhã. Educar não é aplicar uma fórmula. É conhecer quem temos diante de nós. Aliás, isto não vale apenas para crianças. Vale para todas as pessoas.
Há uma fronteira inegociável: violência, não!
Nem física, nem psicológica. Não se ensina respeito humilhando, diminuindo, ameaçando ou batendo. Pode conseguir-se medo e obediência. Respeito é outra coisa e mostra-se pelo exemplo.
Queremos filhos que saibam escutar? Temos de os escutar. Que sejam gentis? Têm de nos ver ser gentis. Que saibam pedir desculpa? Precisam de nos ouvir pedir desculpa quando erramos. As crianças ouvem aquilo que lhes dizemos, mas aprendem sobretudo observando quem somos.
E os adultos têm de assumir a responsabilidade de serem adultos.
Nem todas as feridas da infância vêm apenas daquilo que aconteceu. Algumas nascem também daquilo que devia ter acontecido e não aconteceu. Do colo que faltou. Da proteção que não chegou. Da palavra que ninguém disse. Do adulto que devia proteger e não protegeu, que devia escutar e não escutou, que devia estar presente e não esteve.
Uma criança não precisa de adultos perfeitos. Precisa de adultos capazes de reconhecer quando erram e reparar. Adultos que não coloquem sobre os filhos o peso dos seus conflitos, das suas escolhas ou das suas emoções.
Outro princípio parece simples: não fazer pelas crianças aquilo que elas já conseguem fazer.
Dar-lhes tempo. Deixá-las experimentar. Resistir à tentação de resolver só porque é mais rápido. Deixá-las tentar, falhar e voltar a tentar. Ajudar não é substituir. É estar suficientemente perto para que se sintam seguras e dar-lhes espaço para descobrirem que conseguem.
A autonomia não começa aos 18 anos. Constrói-se desde muito cedo, nas pequenas coisas.
E não precisam, nem devem ter tudo.
Nem presentes constantes, nem brinquedos sem fim. Uma infância não se mede pela quantidade de coisas que conseguimos colocar nas mãos de uma criança. Quando tudo chega pronto e depressa, sobra menos espaço para desejar, esperar, imaginar e criar.
Uma caixa pode ser uma casa. Um lençol, uma cabana. Duas pedras, o início de uma história.
As crianças precisam sobretudo daquilo que não se compra: tempo, presença, conversa, segurança, limites, liberdade para brincar, algum tédio para inventar, natureza, pessoas, memórias.
Quanto mais avanço no caminho da comunicação, relações e parentalidade, mais valor dou às nossas conversas. O conhecimento é indispensável. Mas existe uma sabedoria que nenhuma formação substitui.
Há uma lição, ainda desafiante para mim, nalguns contextos: não levar tudo tão a sério.
Quando o mundo fica hostil, a minha rica sogra tem uma competência que admiro imenso. Não entra em todas as guerras, não responde a todas as provocações, não permite que a confusão dos outros passe automaticamente a ser sua. Às vezes sorri, como quem olha para aquilo tudo e percebe: esta alucinação não me pertence.
Eu ainda estou a aprender esta parte.
Quando começo a explicar, a analisar, a tentar perceber por que razão alguém fez isto ou aquilo, ela ouve-me e, a certa altura, solta:
“Ehhh…”
Só isso.
E naquele “Ehhh…” cabe uma filosofia de vida.
Nem tudo merece resposta. Nem tudo precisa de ser compreendido. Nem tudo o que acontece à nossa volta precisa de entrar dentro de nós.
Depois despedimo-nos. E as nossas conversas acabam quase sempre da mesma maneira.
“Gosto muito da mãe.”
“E eu de ti, minha filha.”
Há coisas que temos de levar muito a sério.
O amor é uma delas.
O resto?
Ehhh…