Moradores retirados da Fajã das Galinhas em alojamentos provisórios há dois anos
Os moradores da Fajã das Galinhas continuam em alojamentos provisórios, dois anos depois de terem sido retirados da localidade devido ao incêndio que lavrou na Madeira durante 13 dias consecutivos, entre 14 e 26 de agosto de 2024.
"A situação continua na mesma", disse à agência Lusa Isalina dos Santos, que integra o grupo de 120 pessoas retiradas do sítio, nas zonas altas do concelho de Câmara de Lobos, em 17 de agosto de 2024, três dias após o início do incêndio rural.
O fogo deflagrou em 14 de agosto nas serras do município da Ribeira Brava, na zona oeste da Madeira, e propagou-se progressivamente aos concelhos de Câmara de Lobos, Ponta do Sol (também na zona oeste) e Santana (na costa norte), onde consumiu vastas áreas na cordilheira central.
Em 26 de agosto, ao fim de 13 dias, o Serviço Regional de Proteção Civil indicou que o incêndio rural estava "totalmente extinto".
Embora nenhuma casa da Fajã das Galinhas tenha sido afetada, as autoridades decidiram retirar a povoação, num total de 33 agregados familiares, porque as chamas a cercaram durante vários dias e tornaram intransitável a única estrada de acesso, numa extensão de cerca de dois quilómetros ao longo de uma escarpa.
A Câmara Municipal de Câmara de Lobos realojou as famílias a título provisório em vários locais do município, contíguo ao Funchal a oeste, e assumiu os custos da operação, que recebeu o Prémio Excelência Autárquica na área de Ação Social, atribuído pela organização Cidade Social, em setembro de 2024.
A autarquia, liderada pelo PSD, anunciou também a construção de casas, para alocar àquelas famílias, no Estreito de Câmara de Lobos, freguesia a que pertence o recôndito sítio da Fajã das Galinhas, mas o projeto ainda está em execução.
"Ainda não tive nenhuma informação da Câmara sobre isso [atribuição de casas]", disse Isalina dos Santos, sublinhando que "não houve qualquer evolução" desde que a família foi realojada temporariamente num apartamento T3 no sítio da Vargem, também na freguesia do Estreito de Câmara de Lobos.
"Pelo que sei, continuam todos [os moradores] na mesma situação", observou.
Numa nota enviada à Lusa, o município, atualmente presidido por Celso Bettencourt, confirma que a situação dos moradores se mantém inalterada: "as normas de realojamento das famílias oriundas da Fajã das Galinhas encontram-se a ser elaboradas para serem posteriormente validadas" pelo executivo e pela Assembleia Municipal.
Relativamente aos novos fogos, indica que as primeiras 32 habitações deverão estar concluídas em 2027, sendo que o projeto foi adjudicado em agosto de 2025, um ano após o incêndio.
Na altura, a autarquia referiu que a construção das 32 frações fora adjudicada por 8,2 milhões de euros, com apoio do Instituto de Desenvolvimento Regional (IDR), consistindo em 18 fogos de tipologia T2, 10 fogos de tipologia T3 e quatro fogos de tipologia T4.
As novas habitações ficam no sítio do Castelejo, freguesia do Estreito de Câmara de Lobos, relativamente perto da Fajã das Galinhas, localidade agora remetida ao abandono, com acesso condicionado, mas onde alguns moradores ainda se deslocam com frequência, para cuidar da casa e dos terrenos agrícolas.
A estrada da Fajã das Galinhas foi inaugurada nos anos 90 do século passado e quebrou o isolamento de décadas do local, até então sem acesso rodoviário, mas sempre foi considerada perigosa, devido à ocorrência frequente de derrocadas, pelo que as autoridades equacionaram várias vezes a possibilidade de deslocalizar a população, o que acabou por se concretizar devido ao incêndio.
No total, foram retiradas 120 pessoas do sítio em agosto de 2024, mas os residentes permanentes eram 107 -- 33 agregados familiares --, sendo que os restantes, na maioria emigrantes, se encontravam de férias na região naquela altura.
Não houve registo de feridos ou destruição de casas e infraestruturas públicas essenciais durante o incêndio, mas arderam 5.116 hectares de mato e floresta, grande parte em zonas de difícil acesso, entre as quais 139 hectares de floresta laurissilva, que é património mundial e ocupa um total de 15.000 hectares.
A retirada e o realojamento dos moradores da Fajã das Galinhas foram a situação com maior impacto a longo prazo, mas as chamas destruíram também pequenas produções agrícolas, tendo cerca de 200 agricultores e 41 produtores de gado apresentado declarações de prejuízo.
O combate ao fogo mobilizou mais de mil operacionais das corporações de bombeiros da região, da Força Operacional Conjunta (FOCON) e dos bombeiros voluntários dos Açores, e envolveu dois aviões Canadair, acionados através do Mecanismo Europeu de Proteção Civil.
O incêndio motivou a constituição de uma comissão de inquérito na Assembleia Legislativa da Madeira, a pedido do PS, então o maior partido da oposição regional, mas os trabalhos foram interrompidos em janeiro de 2025 na sequência da queda do executivo regional minoritário do PSD e nunca mais foram retomados. Os sociais-democratas venceram depois as eleições antecipadas e formaram governo em coligação com o CDS-PP.