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Correr até à exaustão: quando o running deixa de ser saudável

A corrida nunca esteve tão popular, mas entre o “pace” perfeito, os quilómetros acumulados e a comparação constante nas redes sociais, estaremos a transformar um dos melhores hábitos para a saúde numa nova fonte de pressão? Talvez seja tempo de parar, respirar e lembrar porque começámos a correr

Calma! Antes de me excomungarem do atletismo regional ou me mandarem para o exílio desportivo, leiam até ao fim. Esta é uma crítica, sim, mas pretende ser construtiva.

A corrida nunca esteve tão na moda. Ou, como agora gostamos de dizer, o running. Há mais corredores, mais provas, mais dorsais, mais relógios, mais aplicações e, claro, mais fotografias para provar que realmente fomos correr.

E atenção: isto pode ser uma coisa boa.

A ciência é clara quanto aos benefícios da atividade física e da corrida para a saúde. O problema, na minha opinião, não está na corrida. Está na forma como alguns de nós começámos a relacionar-nos com ela. Correr, que antes era sinónimo de liberdade, parece estar a transformar-se, para muitos, numa obrigação. Se o treino não correu bem, vem a frustração. Se o pace baixou, frustração. Se não cumprimos a distância prevista, frustração. E se não publicarmos o treino nas redes sociais, quase parece que ele nem aconteceu.

Começámos a procurar o treino perfeito, a prova perfeita e o corpo perfeito. Comparamos o nosso treino com o recorde pessoal dos outros e esquecemo-nos de uma coisa importante: nas redes sociais vemos o resultado, mas raramente vemos o processo. Não vemos a lesão, a dor, o cansaço, a semana em que não correu bem ou as dificuldades que ficaram fora da fotografia. A comparação constante está a transformar um desporto que deveria trazer prazer numa competição permanente.

E há outro problema: parece que já não basta correr.

É preciso correr uma maratona. Depois uma ultra. Depois mais e mais quilómetros. Se possível, com um pace impressionante, medalhinha de participação ao pescoço e uma fotografia no final.

Mas será que toda a gente precisa disso?

Não. E está tudo bem.

Nem todos precisam de correr uma maratona, fazer uma ultra, um Ironman ou 100 ou mais quilómetros por semana. O objetivo desportivo de uma pessoa não tem de ser igual ao da pessoa que corre ao seu lado.

Há quem queira competir. Há quem queira bater recordes. Há quem queira subir montanhas. E há quem queira simplesmente correr meia hora, três vezes por semana, e voltar para casa feliz.

Nenhum destes objetivos é menos válido.

A procura de performance também não é, por si só, um problema. A competição e a vontade de ultrapassar os nossos próprios limites fazem parte do desporto e podem ser profundamente positivas. O problema começa quando a performance deixa de ser uma escolha e passa a ser uma obrigação, uma comparação constante ou uma forma de validar o nosso valor.

E aqui entra duas palavras muitas vezes esquecida: dosear e planear.

Treinar é aplicar um estímulo. Evoluir é saber doseá-lo, recuperar e adaptar. A carga deve ser ajustada à condição física, aos objetivos, à experiência, à idade, à disponibilidade e, sobretudo, à capacidade de recuperação de cada pessoa. Por isso, um bom planeamento e, quando possível, um acompanhamento ajustado a cada corredor podem fazer a diferença entre treinar para evoluir e simplesmente acumular quilómetros.

Preparar um corredor não deveria significar apenas correr.

Força, mobilidade, estabilidade, core, descanso e recuperação não são luxos nem acessórios. São parte da preparação. A corrida pode ser o objetivo, mas é o corpo inteiro que tem de estar preparado para a suportar.

O problema começa quando transformamos o desporto numa disputa para descobrir quem sofre mais.

Treinar cansado não é necessariamente mérito. Ignorar dores não é coragem. Correr lesionado não é mentalidade forte. Treinar sem planeamento não é liberdade. Dormir pouco para conseguir treinar mais não é disciplina.

Também no trail running, uma modalidade extraordinária que trouxe milhares de pessoas para a natureza e para a montanha, devemos ter bom senso. Quanto mais exigente é o desafio, maior deve ser o respeito pela preparação, pela recuperação e pelos limites do nosso corpo.

E talvez aqui esteja uma das maiores ironias do running: há quem controle ao segundo o pace, a frequência cardíaca e o desnível acumulado, mas continue a olhar para o treino de força como se fosse uma atividade de outro planeta. A ciência tem mostrado benefícios do treino de força para corredores. Talvez esteja na altura de percebermos que correr mais nem sempre é a única solução para correr melhor.

No fundo, talvez precisemos de mudar a pergunta.

Em vez de “Quanto ainda consigo treinar?”, deveríamos perguntar: “Como consigo continuar a treinar durante muitos anos?”

Porque a verdadeira medida de uma boa performance não está apenas em correr mais rápido ou mais longe. Está também em preservar a capacidade de continuar a correr.

Saúde é conseguir continuar a praticar exercício daqui a cinco, dez ou vinte anos.

A maior vitória de um corredor de pelotão não é necessariamente o pódio, a medalha ou o recorde da aplicação. É conseguir manter a paixão pela corrida sem perder a saúde pelo caminho.

A corrida não está doente. Mas alguns comportamentos dentro dela estão. E alguns agentes desportivos estão a fazer um péssimo trabalho.

E talvez esteja na altura de falarmos sobre isso antes que, na tentativa de correr cada vez mais, nos esqueçamos da razão pela qual começámos. Porque correr bem também é cuidar da própria continuidade: encontrar o equilíbrio entre intensidade, saúde e longevidade.

Porque correr deve acrescentar vida aos nossos anos e não retirar anos à nossa corrida.