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Crónicas

A segurança que nos deixa partir

A verdadeira autonomia nasce da segurança emocional, da previsibilidade e da confiança na relação

“Mãe, quantas vezes é que nos vais visitar?”

As duas fizeram exatamente a mesma pergunta.

Muito antes de fazermos as malas, já preparávamos a viagem. Antes da roupa, dos bilhetes e das reservas, preparávamos aquilo que não cabia em nenhuma mala: a sensação de segurança. Falávamos dos dias em que estaríamos juntas, daquilo que gostaríamos de fazer, do que poderia não correr como imaginávamos e, sobretudo, dos reencontros. Só depois começávamos a fazer as malas.

Todos os verões, salta-me à vista o mesmo equívoco sobre a parentalidade. Tendemos a acreditar que os nossos filhos se vão lembrar das viagens mais longas, dos destinos mais distantes ou dos dias mais preenchidos. Mas, se hoje lhe pedisse que recordasse as férias mais felizes da sua infância, é provável que a memória não começasse no destino e sim, na forma como alguém o fez sentir. A teoria da vinculação ajuda-nos a compreender isso. O que permanece raramente é o destino. O que permanece é a qualidade da relação. É a forma como um filho se sentiu visto, escutado, compreendido, seguro e importante. E, se repararmos, é isso que nós, adultos, também guardamos na memória.

Com três meses de férias letivas, a nossa família reorganiza-se todos os verões. As notícias não escolhem dia, hora nem fazem férias. É assim a vida de um jornalista. Enquanto continuo a trabalhar, aciono a nossa “task force” familiar. Os avós maternos recebem as netas em Cascais, onde os dias se enchem de sol, mar e areia, livros, atividades culturais, passeios e, sobretudo, tempo partilhado.

Durante muito tempo senti culpa por não conseguir estar em todo o lado. Hoje sei que uma boa mãe não é aquela que faz tudo sozinha. É aquela que garante que os filhos crescem rodeados de amor, de segurança e de adultos emocionalmente disponíveis.

Educar também é confiar. É perceber que os filhos não crescem apenas dentro de casa. Crescem na relação com uma aldeia inteira de pessoas que lhes oferece segurança, estabilidade e pertença.

Foi isso que as minhas filhas também me ensinaram. A previsibilidade, dentro do que é possível, é uma forma de amor. Sobretudo quando se é neurodivergente. Porque ajuda o corpo a sentir-se seguro.

Para muitas famílias, aquelas conversas antes da viagem podem parecer apenas organização. Para nós, são uma forma de cuidar.

Quando sabemos o que vai acontecer, o corpo relaxa. Quando nos sentimos seguros, sobra espaço para explorar, descobrir, para a curiosidade se transformar em crescimento. O sistema nervoso não lê a agenda. Lê segurança. Lê previsibilidade. Lê relações.

É essa segurança que permite a um filho afastar-se para explorar o mundo. Porque só quem sabe que tem uma base segura ganha verdadeira liberdade para partir e a confiança de que existe sempre um lugar seguro para onde regressar. Um vínculo seguro não impede um filho de explorar. Dá-lhe confiança para o fazer. É por isso que não se constrói apenas com amor. Constrói-se através de experiências repetidas em que um filho percebe que o adulto está disponível, que é coerente, que cumpre o que promete e que regressa.

Foi então que interrompi a rotina. Durante uns dias, os avós puderam descansar e reservei esse tempo só para nós, mãe e filhas. Sem pressa. Sem horários desnecessários. Com o telemóvel quase sempre em modo fotografia.

Escolhi o PortoBay Marquês, na Avenida da Liberdade. Conhecemos bem aquela zona de Lisboa. Há ruas que guardam capítulos importantes da nossa história. Durante anos percorri aquelas ruas à procura de respostas, orientação e esperança. O PIN Partners in Neuroscience fica ali perto e faz parte desse caminho. Desta vez não havia consultas marcadas. Havia apenas tempo. Gostei da ideia de regressar ao mesmo lugar para lhe dar um significado diferente. Há lugares que também merecem novas memórias.

Também escolho, de forma intencional, que as minhas filhas contactem com ambientes mais exigentes do ponto de vista sensorial, como caminhar numa grande cidade. Não para as proteger de tudo, mas para estar ao lado delas enquanto descobrimos estratégias individuais de regulação. Porque a vida nunca será totalmente previsível. E também não é justa. É o que é. A diferença está na forma como aprendemos a caminhar nela. Na prática, como a atravessamos sem sermos atravessados por ela.

O meu papel de mãe não é eliminar todos os desafios. É ajudá-las a desenvolver recursos internos para os enfrentar, sabendo que não estarão sozinhas. Regular não é deixar de sentir. É descobrir que é possível atravessar o desconforto sem perder a sensação de segurança. E isso também se aprende.

No fundo, estes dias nunca foram sobre Lisboa. Nem sobre um hotel. Nem sequer sobre férias. Foram sobre vínculo.

Houve conversas, gargalhadas, pequenos silêncios, abraços, muitos mergulhos e tempo. Houve previsibilidade, presença e a tranquilidade de não precisarmos de estar em mais lado nenhum.

Na viagem de regresso à Madeira voltei à primeira pergunta que me fizeram antes de fazermos as malas.

“Mãe, quantas vezes é que nos vais visitar?”

Acredito que um vínculo seguro é exatamente isto. A certeza de que nunca foi sobre contar visitas. Foi sempre sobre confiar no regresso