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Crónicas

Ler é aprender a pensar (pela própria cabeça…)

Os livros não têm super-poderes nem a humanidade depende diretamente deles, o problema não é sequer sobre literacia mas sim sobre essa falta de profundidade que a torna superficial e descontínua

Há anos que vou de férias sempre para a mesma praia e se no inicio era comum ver muita gente de livro na mão, com o passar do tempo esse número foi diminuindo de forma considerável até que este Verão, vi o leitor voraz lá de casa e pouco mais É fácil de perceber que os hábitos de leitura estão a mudar, basta olharmos à nossa volta ou para os números das tiragens de livros e de vendas para quem quiser ser mais exato. Já para não falar de quem compra livros mas depois sucumbe às primeiras páginas sem se deixar envolver pelo mesmo. Esse é aliás um prisma curioso, o de que não estamos a deixar de ler palavras, estamos é a perder o hábito mental da leitura profunda substituindo-o por pequenos fragmentos de informação.

Os livros não têm super-poderes nem a humanidade depende diretamente deles, o problema não é sequer sobre literacia mas sim sobre essa falta de profundidade que a torna superficial e descontínua. A leitura longa é um treino cognitivo, ajuda-nos a treinar e o desenvolvimento de ideias, memória e pensamento critico. Exercita a imaginação e abre as portas da criatividade. Os vídeos curtos ou os resumos produzidos pela inteligência artificial não substituem por isso a capacidade de manter a atenção por longos períodos ou a facilidade de linguagem e descrição de diversos elementos. A tecnologia alterou os nosso hábitos mentais e os telemóveis, as redes sociais e o consumo imediato tornam a estória em papel, lenta, o que leva a um cansaço e desinteresse de quem se move por estímulos cada vez mais instantâneos.

Com o aparecimento da IA essa tendência tem vindo a acentuar-se. Para além de as pessoas arranjarem quem lhes escreva os textos, os emails e tire conclusões por elas, temos também os resumos de livros, relatórios ou artigos em vez de os lerem. Não se perde só informação, perde-se fundamentalmente o esforço intelectual. Isto traduz-se numa menor capacidade para analisar argumentos complexos e numa maior vulnerabilidade perante as fake news mas corre também o risco de tornar estas gerações mais dependentes de opiniões simplificadas e de conteúdos emocionais. Como diz Rose Horowitch no seu ensaio “The End of Reading is Here” a leitura “sempre foi uma conquista frágil”, nunca foi uma capacidade inata do ser humano e demorou séculos a generalizar-se tendo sido apenas uma fase relativamente breve da história. Agora com as múltiplas ofertas de entretenimento e o fácil acesso a estudos mais técnicos ela volta a ser colocada em causa.

Os livros não servem só para adquirir informação, servem para desenvolver a forma como pensamos. Num momento em que a IA resume qualquer texto em segundos a questão deixa de ser “quanto sabemos” e passa a ser “quanto conseguimos compreender por nós próprios”. E esse é (mais) um grande desafio dos nossos tempos.

Frases soltas:

O campeonato de futebol português ainda não começou e já está envolvido numa série de trapalhadas como aliás é costume. Numa altura decisiva para a centralização dos direitos televisivos e quando devíamos estar a trabalhar para entregar mais qualidade e reputação ao produto, aparece um juiz, (sim um árbitro é o juiz de um jogo), a mentir descaradamente num relatório de um jogo e nada lhe acontece. Para ajudar à festa, uns áudios revelados há poucos dias mostram o presidente da FPF Pedro Proença a criticar a arbitragem aproveitando para se enaltecer a ele próprio. Novo ano, velhos hábitos…

Na Suíça uma cidadã inicialmente multada em 100 francos suíços por usar um véu integral em público (a lei local proíbe) viu a coima ser aumentada para 1000 francos ao ter recorrido alegando islamofobia. Por cá devíamos seguir o mesmo principio a começar nos sujeitos que vão de cara tapada fazer distúrbios para os estádios de futebol.