Vale a pena pensar nisto
A mobilidade e a revisão da Lei das Finanças Regionais permanecem num impasse
Vivemos num tempo estranho. O mais instável e volátil desde o fim da II Guerra Mundial. Durante décadas, o mundo habituou-se a acreditar que a História caminhava, apesar dos tropeções, na direcção de mais liberdade, mais direitos e mais democracia. Hoje, essa convicção desfaz-se à velocidade de um clique, dos populismos e das guerras. O que parecia definitivamente derrotado regressa com uma inquietante naturalidade.
Multiplicam-se conflitos armados, cresce o discurso de ódio e renascem correntes extremistas que pretendem reescrever a História. Há quem relativize ou negue o Holocausto. Há quem defenda perseguições a minorias, expulsões em massa de imigrantes, restrições a direitos fundamentais, alargamento da pena de morte e uma justiça feita para satisfazer a sede de vingança pública. Como se os antigos autos-de-fé apenas aguardassem uma nova roupagem.
Os grandes estadistas do pós-guerra sabiam o preço da guerra e o valor da paz. Entendiam que a dignidade humana, a liberdade individual e o Estado de Direito eram a condição elementar do desenvolvimento. Hoje, um número crescente de dirigentes prefere governar pelo medo, alimentar divisões e transformar adversários em inimigos.
Perante tanta incerteza, seria legítimo esperar que a política se concentrasse nos problemas concretos das pessoas e não em laborar pelo retrocesso civilizacional.
Na Madeira, continua-se a gastar energia em debates que pouco nos dizem. Discute-se a construção em altura sem que seja conhecido qualquer estudo que demonstre a sua necessidade ou impacto. Se existe, porque não é divulgado? Se não existe, porque se lança o tema? Parece mais um balão de ensaio para medir a reacção pública do que uma estratégia séria para o território.
Entretanto, os problemas reais acumulam-se. Temos a geração mais qualificada de sempre, mas também uma das primeiras a perceber que estudar e trabalhar já não garantem autonomia. Produz riqueza, desconta e, ainda assim, não consegue comprar casa nem projectar o futuro. Muitos continuam em casa dos pais porque simplesmente não há alternativa.
Também a mobilidade permanece por resolver. Viajar para o continente continua a obrigar os madeirenses a adiantar centenas de euros ao Estado para exercerem um direito. E tudo isto esvazia de sentido os sucessivos encontros entre Funchal e Lisboa. Multiplicam-se as fotografias e os comunicados, mas os resultados continuam adiados. A mobilidade e a revisão da Lei das Finanças Regionais permanecem num impasse. É essa a realidade.
Ao mesmo tempo, o custo de vida sobe sem dar tréguas. Comer fora tornou-se um luxo para muitas famílias. A pressão turística faz disparar preços e instala a certeza de que a Madeira está cada vez menos acessível aos madeirenses. A Região vai deixando de ser pensada para quem cá vive e passa a ser cada vez mais preparada para quem a visita.
Também a qualidade de vida paga a factura do crescimento. Estradas congestionadas, estacionamento impossível e pontos de interesse transformados em locais permanentemente saturados. O crescimento económico é importante, mas as pessoas não vivem de indicadores. Vivem do salário que recebem, do tempo que perdem no trânsito e das contas que fazem ao fim do mês. Não vale a pena o Governo Regional negar esta evidencia. Apresente alternativas para melhorar a vida de quem os elege e pare de negar o que está à vista de todos.
Nunca houve tantos discursos sobre crescimento e desenvolvimento. Mas cresce igualmente a convicção de que as pessoas vivem com menos previsibilidade e menos confiança no futuro. A política entretém-se com anúncios e muitos acessórios, enquanto o essencial continua mascarado por estatísticas favoráveis.
E esse é o maior risco das democracias: quando quem governa deixa de responder às preocupações reais das pessoas, haverá sempre alguém disposto a transformar a frustração em radicalismo.