O DIÁRIO e Eu

Os olhos vêm, o coração sente e a mente grava.

Predicados estes, que caracterizam uma leitura.

No circuito da minha mente, já com alguns fusíveis oxidados pelo tempo, ainda me é possível, acionar várias gravações, com algumas dezenas de anos.

Rebobinei a cassete e, facilmente me veio ao de cima, as minhas primeiras leituras no DIÁRIO.

Anos sessenta, quando ser assinante de um jornal, era um luxo. As dificuldades de então, assim o caracterizavam. Eu lia o diário emprestado.

Na pacatez daquela aldeia de Santana, a maioria da população naquela época, era analfabeta, dedicava-se quase totalmente à agricultura. Era na homilia da missa do domingo, que ficava sabendo de algumas notícias mais relevantes, que o pároco ia reproduzindo dos jornais. Entre aqueles que sabiam ler, alguns iam ler o DIÁRIO à venda mais próxima, já que alguns comerciantes, eram assinantes.

O DIÁRIO chegava aquela aldeia, por volta das dez e meia, pelo horário que fazia a carreia, Funchal-Boa Ventura, cujos exemplares eram entregues na venda do seu correspondente, Manuel Rodrigues Jardim (um Senhor com S grande, o qual me deu o prazer de ser seu empregado). Cada assinante ia lá levantar o seu DIÁRIO. No final da tarde, caso ainda houvesse DIÁRIOS por levantar, ele encarregava-me de os entregar aos seus destinatários mais próximos. Incumbia-me ele também, de obter os resultados dos jogos de futebol da equipa de Santana, para os enviar para o DIÁRIO via telefone, já que nessa época, eu jogava nos infantis da equipa.

Que lindas eram as suas crónicas escritas no DIÁRIO!

Ainda me recordo os temas de duas delas; uma, o tema foi as Queimadas e a outra, foi sobre a festa do Senhor Bom Jesus da Ponta Delgada.

Foi a partir daí, que começou a minha relação com este ilustre matutino e, já lá vão, mais de sessenta anos (cinquenta como assinante). Hoje com uma relação mais próxima, proporcionada pelas cartas do leitor, um espaço que o DIÁRIO gentilmente nos oferece para expormos as nossas questões, onde me tem sido facultado o prazer de vazar o que me vai na alma, através dos meus poemas, expondo também as minhas sátiras e ainda, algumas críticas. Por esta oportunidade, o meu muito obrigado.

Seis e meia da manhã, seja inverno ou verão, abro as portas da minha casa, cheiro a madrugada, respiro fundo e vou direitinho à caixa do correio, pego no meu DIÁRIO, volto portas adentro, abro as suas páginas, e vai daí, uma saborosa leitura, acompanhada por um chazinho. Uma rotina do dia-a-dia entranhada na minha vida.

No meu baú de recordações, ainda preservo um exemplar do DIÁRIO com o número 28.774, ano 87º, de 9 de maio de 1963, com uma grande reportagem sobre jogo de futebol, da segunda mão das meias finais, da taça dos campeões europeus, em que o Benfica na qualidade de bicampeão europeu, derrotou o Feijenoord da Holanda, por três a um, apurando-se assim, para a final em Wembley. Duas fotografias relativas ao jogo, ilustram a primeira página, onde se vê numa delas, Eusébio a rematar para o golo.

Este exemplar contém oito páginas, cujas páginas são de grande dimensão, um pouco acima do dobro das atuais.

Obrigado DIÁRIO

Século e meio a informar, é obra.

Parabéns.

José Miguel Alves