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Fact Check Madeira

A religião que mais cresce e mais peso tem entre os estrangeiros a viver na Madeira é o islamismo?

Tendo em conta que é subjectivo (ou seja seria preciso perguntar a cada um qual a religião que professa), cingimo-nos a analisar do ponto de vista da religião dominante no país dos 19.371 a residir na região em 2025

Foto Shutterstock
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Entre 2021 e 2025, a população estrangeira residente na Madeira passou de 7.423 para 19.371 pessoas, um crescimento de 161%. As 20 nacionalidades mais representadas mantêm-se responsáveis por 83% a 84% do total em cada um dos cinco anos, pelo que a análise por nacionalidade principal continua a ser representativa do conjunto. E são de países da Europa à Ásia, das Américas a África, seguramente de todas as raças e credos religiosos (e, provavelmente, até sem nenhum). A Madeira, além dos portugueses, alberga mais de 100 nacionalidades diferentes. Mas qual é a religião predominante entre os estrangeiros, sabendo-se que, tradicionalmente, o cristianismo é o predominante na população madeirense?

Olhando ao crescimento percentual de cada nacionalidade, o valor mais elevado entre os países com presença já significativa em 2021 pertence ao Bangladeche, que passou de 10 para 719 pessoas, um crescimento de 7.090%. O INE mostra ainda que, entre as mais de 116 nacionalidades no quadro de países, há 17 países que em 2021 tinham zero residentes na Madeira e em 2025 já registavam entre 1 e 10 pessoas, como Malta, Nova Zelândia ou Zimbabué; matematicamente, o crescimento percentual destes casos é infinito, mas os números absolutos são demasiado pequenos para terem qualquer relevância na composição da população estrangeira e, também, da predominância religiosa.

A segunda maior subida percentual pertence ao Nepal, país marcadamente hinduísta, que passou de 130 para 1.534 pessoas, um crescimento de 1.080%. Ao contrário do Bangladeche, de maioria muçulmana, este valor assenta numa base já relevante em 2021 e resulta, em 2025, na terceira maior comunidade das 20 analisadas, atrás apenas de Venezuela e Brasil, dois países marcadamente cristãos. Mas, vamos a factos ainda mais marcantes antes de responder à questão.

Se em vez do crescimento percentual olharmos para o peso que cada nacionalidade ganhou no total da população estrangeira, a resposta muda: o Nepal foi quem mais peso ganhou, passando de 1,75% do total em 2021 para 7,92% em 2025, mais 6,17 pontos percentuais, e esse lugar mantém-se mesmo confrontando com as 116 nacionalidades analisadas. O Bangladeche surge em segundo lugar nesta métrica, com um ganho de 3,58 pontos percentuais. Em sentido contrário, as duas maiores comunidades perderam peso relativo apesar de continuarem a crescer em número absoluto: a Venezuela caiu de 20,80% para 15,51% (-5,29 p.p.) e o Brasil de 13,39% para 10,13% (-3,26 p.p.), sinal de que o crescimento de comunidades mais pequenas está a diversificar a origem da população estrangeira na Madeira.

Quanto à origem por continente, as 20 nacionalidades distribuem-se pela Europa (Alemanha, Reino Unido, Ucrânia, Rússia, Itália, França, Polónia, Espanha, Países Baixos), América do Sul (Venezuela, Brasil, Colômbia), Ásia (Nepal, Bangladeche, Índia, China), África (São Tomé e Príncipe, Moçambique, Guiné-Bissau) e América do Norte (EUA).

Assim, cruzando cada país com a sua religião maioritária, é possível esboçar um ranking aproximado das religiões mais prováveis entre estes estrangeiros, baseado na maioria religiosa de cada país de origem, e não em dados individuais dos próprios residentes, o que é quase uma impossibilidade estatística se não for feito um inquérito abrangente.

Em primeiro lugar o cristianismo, predominante nos países europeus, sul-americanos, em São Tomé e Príncipe, Moçambique e nos EUA, cobrindo cerca de 81% das 20 nacionalidade. Segue-se o hinduísmo, sustentado sobretudo pelo Nepal e pela Índia, com cerca de 12%; depois o islão, sustentado sobretudo pelo Bangladeche e pela Guiné-Bissau, com cerca de 6%; e por fim uma fracção residual ligada à China, onde predominam o budismo, o taoísmo e a ausência de religião.

É uma estimativa indicativa por país de origem, que não capta a diversidade religiosa interna de cada comunidade nem tendências de secularização (processo histórico e social em que a religião perde a sua influência sobre as estruturas, instituições e o quotidiano da sociedade), particularmente relevantes em países como Países Baixos, França, Reino Unido ou China.

Respondendo então à pergunta inicial, agora confirmada com os dados oficiais do INE: não existe uma única nacionalidade que reúna em simultâneo o maior crescimento percentual e o maior ganho de peso entre 2021 e 2025, muito menos quando vamos apontar à religião, uma 'ameaça' que tem sido frequentemente alvo de temática política. É certo que o maior crescimento percentual pertence ao Bangladeche (7.090%), partindo de uma base pequena mas já com algum significado (10 pessoas, mais do que os casos de crescimento 'infinito' a partir de zero) mas representam apenas 3,7% dos estrangeiros a residir na Madeira. Já o maior ganho de peso relativo na população estrangeira pertence ao Nepal (+6,17 pontos percentuais), país maioritariamente hinduísta, apoiado num crescimento também muito elevado (1.080%) sobre uma base mais robusta. Considerando a formulação da pergunta como referindo-se a uma só religião, vamos ter de ir mais a fundo.

Ou seja, usando a lógica de atribuição de religião maioritária por país de origem (aplicada agora às 116 nacionalidades dos dados do INE, não só às 20 principais), dá para responder com mais detalhe, sendo certo que há 38 cidadãos estrangeiros de outras nacionalidades não especificadas e incluídos no grupo 'Outros'.

Em termos absolutos, o cristianismo continua a ser, de longe, a maior 'religião' entre os estrangeiros residentes na Madeira, tendo passado de 6.764 para 15.567 pessoas entre 2021 e 2025, um crescimento de 130%. Mas é precisamente por já ser tão dominante que cresce a um ritmo mais lento do que os grupos menores, o que resulta neste pormenor: em termos de peso relativo, o cristianismo passou de 91,1% para 80,4% do total de estrangeiros, uma perda de quase 11 pontos percentuais, apesar de continuar a crescer em número.

Mas quem mais ganhou peso foi o hinduísmo, sustentado quase inteiramente por Nepal e Índia: passou de 175 para 1.873 pessoas (+970%), e de 2,36% para 9,67% do total, um ganho de 7,31 pontos percentuais, o maior de todos os grupos religiosos e já a segunda maior 'religião' entre os estrangeiros na Madeira, folgadamente à frente da terceira.

O islão vem a seguir, impulsionado sobretudo pelo Bangladeche (719), Guiné-Bissau (280), Paquistão (114) e Marrocos (53): de 157 para 1.366 pessoas (+770%), e de 2,12% para 7,05% do total, um ganho de 4,94 pontos percentuais.

Se o critério for crescimento percentual puro, o valor mais alto pertence ao judaísmo, com +1.800% (de 3 para 57 pessoas), quase todo ele explicado pelo crescimento de residentes de Israel. Mas, tal como aconteceu com o Bangladeche na análise por nacionalidade, é um valor pouco robusto por partir de uma base muito pequena. O budismo também regista um crescimento percentual elevado (+667%, de 9 para 69 pessoas, sobretudo Tailândia, Sri Lanka e Vietname), igualmente com pouca expressão absoluta.

Vale repetir a reserva de sempre: esta classificação é feita por maioria religiosa do país de origem, não por dados individuais dos residentes, pelo que não reflecte a diversidade religiosa interna de cada comunidade nem eventuais conversões, praticantes de outras confissões dentro de cada país, ou pessoas sem religião.

Resumindo: se a pergunta for "que religião ganhou mais peso relativo entre os estrangeiros", a resposta é o hinduísmo. Se for "que religião cresceu mais em termos percentuais", a resposta técnica é o judaísmo, mas esse valor é estatisticamente frágil por assentar em poucas dezenas de pessoas, sendo o hinduísmo, mais uma vez, o crescimento percentual mais robusto (+970%) entre os grupos com expressão real na população estrangeira da Madeira. A mais representativa é o cristianismo, cerca de 81%.