DNOTICIAS.PT
Artigos

Viver Sem Saber o Fim

Existe uma tendência curiosa para percecionamos os antigos como figuras distantes, feitas de racionalidade e disciplina férrea, preparados para suportar aquilo que hoje nos parece insuportável, como se os gregos, romanos ou os grandes filósofos pertencessem a um mundo emocionalmente diferente do nosso, menos ansioso, caótico ou vulnerável.

Mas também eles sentiam medo do futuro, inquietação perante a desordem política e mudanças rápidas, receio do declínio das suas instituições e desconfiavam das transformações culturais, perguntando-se se estavam a assistir ao princípio do fim do mundo que conheciam.

Quando Tucídides descreve a peste de Atenas, impressiona a familiaridade dos relatos de uma população dividida entre o pânico, a negação e a erosão da confiança social. Cícero testemunha a angústia perante o colapso da República Romana e a sensação de impotência diante de líderes cada vez mais movidos pela ambição do que pelo bem comum. Santo Agostinho escreveu A Cidade de Deus enquanto Roma era saqueada pelos visigodos e muitos acreditavam estar diante do fim da civilização. Séculos depois, Montaigne confessaria a dificuldade de encontrar estabilidade interior num tempo marcado por guerras religiosas e fanatismo.

O passado dá-nos uma falsa sensação de controlo retrospetivo e tudo parece inevitável depois de acontecer porque conhecemos os desfechos históricos. Sabemos que impérios que desapareceram e que guerras terminaram. Mas os antigos não sabiam. Tal como nós, viviam sem garantias, hesitavam, falhavam previsões, perdiam pessoas e alternavam entre esperança e desencanto.

Durante a crise dos mísseis de Cuba, John F. Kennedy não vivia «dentro da História», mas na ansiedade de decidir sob enorme pressão, sem saber qual escolha poderia desencadear uma guerra nuclear. Hoje, esse episódio parece quase inevitavelmente resolvido, mas, naquele momento, ninguém tinha qualquer certeza.

Quando Marco Aurélio escrevia sobre autocontrolo e dignidade, fazia-o no meio de guerras e da Peste Antonina, e Séneca refletia sobre a serenidade enquanto navegava entre conspirações e violência política durante o império de Nero. E todos procuravam manter-se humanos dentro de tempos turbulentos.

Ninguém vê a História de fora enquanto a vive e, ainda assim, esperamos dever ter respostas definitivas sobre tudo: o futuro da democracia, da tecnologia, da inteligência artificial e das guerras. O cérebro humano procura segurança, coerência e previsibilidade. Queremos saber se o esforço valerá a pena, se o mundo vai melhorar, se os nossos filhos terão uma vida estável e se as instituições resistirão. Quando essas respostas não aparecem, cresce a ansiedade e uma das formas mais rápidas de exaustão emocional é tentar carregar o peso de perguntas que nenhuma geração conseguiu responder plenamente.

Os antigos recordam-nos algo simples. Que a maturidade não é sinónimo de ausência de dúvida, mas a capacidade de continuar a viver com dela. Não sabemos se atravessamos um período de declínio ou de transformação, nem que decisões serão vistas no futuro como sábias ou desastrosas. Mas apesar disso, continuamos a trabalhar, a educar filhos e a cuidar de quem amamos, a construir relações e a tentar agir com decência.

Talvez seja isso que verdadeiramente atravessa os séculos, e não a certeza sobre o futuro. Mas a persistência em fazer o que julgamos certo, mesmo em tempos conturbados.