Um mês depois, resignação e esperança marcam o dia a dia dos luso-venezuelanos
Um mês após o duplo sismo que abalou a Venezuela, os luso-venezuelanos de La Guaira, a localidade mais afetada, debatem-se entre resignação, esperança intercalada com incerteza e algum temor de que a ajuda seja insuficiente para retomarem as suas vidas.
"Estamos resignados, na medida do possível, pela perda dos nossos seres queridos. A natureza atuou com muita violência. Em segundos arrebatou-nos tudo. As coisas materiais se recuperam com o tempo, mas as vidas não. Ainda há muita gente debaixo dos escombros, corpos que esperamos sejam resgatados, para fazer-lhes uma última homenagem", explicou uma portuguesa à Lusa.
Com as palavras a converterem-se em nós na garganta, Margarita Jardim não consegue travar a emoção e explode: "Esta tragédia levou-nos tudo, absolutamente tudo, mas não consegue apagar as memórias dos abraços dos nossos seres queridos, porque estão gravados no coração".
Com 42 anos, e numa região que agora lhe parece estranha, que ficou irreconhecível em apenas alguns segundos, Margarita, viveu parte da sua adolescência em La Guaira, onde fez muitos amigos que agora não sabe "se estão e onde estão".
"Perdi dois na minha família, mas aqui dentro [do peito] há um vazio grande, porque ainda há muitos desaparecidos, muitos conhecidos em parte incerta", disse.
O duplo sismo de 24 de junho deixou a descoberto algo que estava intrínseco, mas pouco visível entre os venezuelanos, a capacidade de ser solidário, explicou José Martins.
"Inclusive quem perdeu tudo, tanto material como familiares, tem sido solidário, tentar apoiar com o pouco com que ficou e dar ânimos, mesmo precisando deles", disse, sublinhando que "a tragédia mostrou a verdadeira cara das pessoas, o lado humano" de locais e de residentes noutras localidades, que se deslocaram aceleradamente porque "La Guaira precisava".
Segundo o radialista português Diego José Freitas, a ajuda tem sido fundamental, em particular a internacional, que espera se prolongue no tempo, para mitigar um drama que prevê se prolongará no tempo.
Freitas, que em 1999 viveu as trágicas enxurradas de La Guaira, que naquela altura se chamava estado de Vargas, voltou a sofrer de perto os efeitos de uma tragédia, agora provocada pelo sismo duplo que destruiu as paredes e acessos ao seu apartamento em Cátia La Mar, uma zona onde, segundo explicou à Lusa, uma conhecida avenida ficou irreconhecível, porque vários edifícios ruíram.
Luísa Marques tem ainda dificuldade em acreditar naquilo que os seus olhos estão a ver e não esconde a sua preocupação sobre o futuro.
"Tudo está tão diferente hoje. Às vezes fecho os olhos com a esperança de que tudo tivesse sido apenas um filme, mas a realidade está aí para lembrar-me o que aconteceu. Não sei qual será o nosso futuro. Às vezes penso que em breve vão se esquecer de nós e, por mais ´guerreiros´ que sejamos, isso me preocupa. Dizem que o tempo passa rápido, mas aqui tudo parece estar parado", desabafou.
Vários luso-venezuelanos explicaram à Lusa que, um mês depois do duplo sismo, a remoção de escombros continua, em particular nas localidades de Mesa Grande, El Caribe, Los Corales e Caraballeda, sublinhando, no entanto, que continua a faltar maquinaria para esses trabalhos.
Também que as autoridades venezuelanas estão a realizar vários censos para identificar os cidadãos afetados e que tipo de ajuda precisam.
Também a verificar as condições de habitabilidade dos edifícios, de construção privada ou pública, tendo estabelecido três cores de "semáforo: se o prédio for identificado com a cor vermelha, deve ser demolido. Se amarela, precisa de reparações e, se verde, está habitável".
Entretanto, foram também anunciados apoios financeiros para a reparação e reconstrução de habitações, que variam em percentagem, segundo as necessidades e trabalhos a fazer.
Os sismos registados na Venezuela em 24 de junho causaram pelo menos 5.398 mortos e 16.740 feridos, segundo o mais recente balanço oficial oficial divulgado esta quarta-feira
Entre os mortos, há pelo menos 133 portugueses e lusodescendentes, e outros 21 estão desaparecidos.
Vários países, incluindo Portugal e outros Estados da União Europeia, enviaram equipas de busca e salvamento para a Venezuela.
Os sismos de magnitude 7,2 e 7,5 ocorreram a 200 quilómetros de Caracas, com menos de um minuto de intervalo, e foram seguidos por centenas de réplicas, de acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos.