Coragem para reformar (mesmo com dores de crescimento)
Há uma velha tentação portuguesa que atravessa gerações, exigir mudanças durante anos e, quando finalmente elas aparecem, dedicar mais tempo a apontar-lhes os defeitos do que a perceber se nos aproximam de um futuro melhor. A recente reforma da educação é um desses casos. Será perfeita? Não. Tem falhas? Já se viu que sim. Levanta dúvidas? Como qualquer transformação séria. Mas, pela primeira vez em muito tempo, há a sensação de que alguém decidiu mexer numa estrutura que parecia condenada à imobilidade. E isso, por si só, já merece reflexão. Em Portugal habituámo-nos a viver entre diagnósticos brilhantes e soluções adiadas. Somos especialistas em identificar problemas. Debatemo-los em conferências, escrevemos relatórios, organizamos grupos de trabalho e produzimos milhares de páginas de recomendações. O que raramente fazemos é dar o passo seguinte ou seja decidir.
A decisão tem um custo. Obriga a escolher. E escolher significa inevitavelmente deixar alguém insatisfeito. Talvez por isso sejamos um país onde tantas reformas acabam por morrer antes de nascer. O medo da crítica tornou-se maior do que a vontade de melhorar. A educação é provavelmente o maior exemplo dessa contradição. Todos concordam que o mundo mudou. A inteligência artificial já faz parte da vida dos alunos. As profissões do futuro ainda nem existem. As competências valorizadas daqui a vinte anos dificilmente serão as mesmas de hoje. No entanto, continuamos muitas vezes a discutir a escola como se estivéssemos presos ao século passado. Não significa abandonar aquilo que funciona. Muito menos desvalorizar professores, conhecimento ou exigência. Significa perceber que preparar uma criança para 2045 não pode ser feito apenas com os modelos de 1995.
As sociedades que hoje admiramos tiveram coragem para experimentar. Algumas acertaram à primeira. Outras erraram, corrigiram, voltaram a experimentar e evoluíram. O progresso nunca foi uma linha reta. Foi sempre um conjunto de avanços, recuos e aprendizagem. Em Portugal, pelo contrário, muitas vezes queremos que uma reforma seja perfeita antes mesmo de começar. Exigimos que resolva todos os problemas, agrade a todos os setores e elimine qualquer risco. Como isso é impossível, acabamos por concluir que é melhor não fazer nada. Mas não fazer também é uma escolha. E normalmente é a mais cara. O país precisa desesperadamente de recuperar uma qualidade que parece ter perdido. Pensamento estratégico.
Governar não pode ser apenas responder ao ciclo mediático de vinte e quatro horas. Também não pode limitar-se à próxima sondagem ou às próximas eleições. Os grandes países constroem-se olhando dez, quinze ou vinte anos para a frente. É assim na educação. É assim na habitação. É assim na saúde. É assim na justiça. É assim na economia. Precisamos de perceber que há decisões cujos resultados não serão colhidos por quem as toma, mas pelas gerações seguintes. Talvez seja precisamente essa a maior dificuldade da política moderna. O retorno eleitoral é imediato, o retorno das boas reformas é lento. Por isso é tão importante criar uma cultura onde se possa discutir melhorias sem destruir, criticar sem bloquear e discordar sem impedir que o país avance.
Infelizmente, parece existir uma parte da sociedade que encontra conforto na crítica permanente. Para essas pessoas, nenhuma proposta será suficiente. Se nada mudar, criticam a estagnação. Se alguma coisa mudar, criticam a mudança. Vivem numa espécie de oposição ao futuro. A bem conhecida personagem do velho do Restelo. Felizmente, Portugal nunca avançou graças aos pessimistas. Avançou porque houve quem acreditasse na escola pública quando muitos duvidavam. Porque houve quem apostasse na democratização do ensino superior. Porque houve quem modernizasse infraestruturas, criasse universidades, internacionalizasse empresas e investisse em inovação, apesar das críticas que sempre acompanharam cada uma dessas decisões.
É isso que hoje faz falta ao país.
Uma visão que aceite que errar faz parte do caminho, desde que exista capacidade para corrigir. Uma visão que compreenda que experimentar não é um sinal de fraqueza, mas de coragem. E uma visão que perceba que o verdadeiro risco não está em reformar, está em permanecer imóvel enquanto o mundo continua a acelerar. Nenhuma reforma educativa resolverá todos os desafios de Portugal. Mas pode representar algo igualmente importante, a demonstração de que ainda somos capazes de olhar para o futuro sem medo. Porque os países que prosperam não são aqueles que nunca erram. São aqueles que nunca deixam de caminhar. Por isso reconheço o mérito e a coragem ao nosso Ministro da Educação. Porque vai uma grande diferença entre querer reformar uma área estratégica para o país e reformar um “tanque” em Odemira…