Campo de Golfe do Porto Santo está mesmo "às moscas"?
A frase apareceu nas redes sociais pouco depois [esta sexta-feira] de Miguel Albuquerque voltar a anunciar o lançamento do concurso para a segunda fase do Campo de Golfe do Porto Santo. «Segunda fase dum campo que anda às moscas», escreveu um utilizador, colocando em causa a necessidade de ampliar uma infra-estrutura que, aparentemente, teria pouca utilização.
A imagem é forte. Um campo vazio, sem jogadores, incapaz de justificar novo investimento público. Mas será mesmo assim?
A resposta não é tão evidente como pode parecer a quem passa junto ao campo num determinado dia. O golfe não concentra milhares de pessoas num espaço reduzido, como acontece num estádio. Os jogadores distribuem-se por 18 buracos, ao longo de várias horas, iniciando as voltas em momentos diferentes. Mesmo quando existe actividade significativa, a sensação visual pode ser de reduzido movimento.
É por isso que a avaliação não pode depender apenas da percepção. É preciso seguir os números. E é precisamente aí que a afirmação começa a perder força.
Em 2025, o Porto Santo Golfe registou 39.749 voltas, o valor mais elevado alguma vez divulgado para o campo. Segundo a Secretaria Regional de Equipamentos e Infra-estruturas, o resultado representa um crescimento de 28% entre 2022 e 2025. Em média, foram realizadas mais de uma centena de voltas por dia ao longo do ano.
O movimento, contudo, não é uniforme. A maior procura verifica-se entre Janeiro e Maio e entre Setembro e Dezembro, com Março a destacar-se como o mês de maior actividade. Nos meses de Verão, quando o destino está mais associado ao turismo de praia, o número de golfistas diminui.
É nessa diferença entre épocas do ano que pode nascer a impressão de abandono. Quem observe o campo em Julho ou Agosto poderá encontrar menos jogadores do que nos meses em que chegam ao Porto Santo grupos organizados, sobretudo provenientes dos países nórdicos. Há sazonalidade, mas sazonalidade não significa ausência de procura.
Os resultados económicos também não combinam com a ideia de um equipamento parado. Em 2025, o campo terá gerado receitas próximas de 1,5 milhões de euros, alcançando um resultado líquido superior a meio milhão de euros.
A origem dos jogadores ajuda a perceber a natureza desta actividade. O Porto Santo Golfe recebeu, ao longo do último ano, golfistas de 37 nacionalidades. A Dinamarca liderou destacadamente, seguida da Noruega, Suécia, Portugal e Alemanha. Mais de 60% dos jogadores eram dinamarqueses, evidenciando a forte dependência dos mercados do Norte da Europa.
Os dados regionais reforçam ainda mais o peso do Porto Santo. Em 2025, os três campos de golfe da Madeira contabilizaram 85.312 voltas, mais 8% do que em 2024. A actividade gerou cerca de 4,5 milhões de euros em receitas, um aumento de 12,9% face ao ano anterior.
O Porto Santo representou, assim, quase metade de todas as voltas realizadas nos campos de golfe da Região.
Foi neste contexto que Miguel Albuquerque voltou a falar na segunda fase do campo, durante a abertura da Expo Porto Santo. O presidente do Governo Regional justificou o investimento com um estudo que aponta para um impacto económico anual de cerca de 26 milhões de euros na ilha, considerando não apenas a receita directa do golfe, mas também os gastos no alojamento, restauração, transportes e comércio.
Este valor, porém, levanta uma questão diferente. Saber se o campo «anda às moscas» não é o mesmo que avaliar se a ampliação é prioritária, se o custo é proporcional ao retorno esperado ou se existem outras necessidades públicas mais urgentes. Essas dúvidas são legítimas e deverão ser respondidas quando forem conhecidos o valor da empreitada, o modelo de financiamento e as projecções de procura da segunda fase.
Mas, no ponto concreto que deu origem a este fact check, os últimos dados disponíveis não sustentam a acusação.
Foram solicitados às Sociedades de Desenvolvimento os números relativos à actividade do Porto Santo Golfe em 2026, incluindo voltas realizadas, número de jogadores, receitas e taxa de ocupação. A informação não foi facultada até ao fecho deste fact check.
A conclusão assenta, por isso, nos dados consolidados de 2025. E esses dados revelam um campo com actividade crescente, receitas positivas, forte presença internacional e o maior número de voltas alguma vez divulgado.
A expressão «anda às moscas» poderá traduzir uma percepção ocasional ou a menor utilização registada em determinados meses. Não descreve, contudo, a realidade anual demonstrada pelos números oficiais.