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Crónicas

A esperança que a felicidade traz

O Iraque invadiu o Kuwait nessas férias, mas o início do que ia ser a guerra do Golfo pareceu-me distante visto pela televisão da sala. O mundo não ia acabar naquele Agosto quente e eu tinha a impressão de que estar em casa, a dormir no meu quarto e perto das pessoas que gostavam de mim me protegia de tudo. Todas as noites adormecia naquele silêncio só interrompido por um cão a ladrar ao longe e acordava de manhã, sem pressa e sem preocupações. Na cozinha, em cima do frigorífico, havia sempre bolo, fruta e o pão fresco que a minha tia Teresa trazia do depósito. E não faltavam ovos, pencas de banana, ameixas e uma chávena de café com leite.

A minha mãe dispensou-me das limpezas e das arrumações e eu aproveitei a sombra da laranjeira para ler os livros que fui comprar à Livraria Esperança, um atrás do outro até ter uma lista razoável e adequada às férias grandes. Foi também o Verão em que comprei o meu primeiro biquíni, um modelo verde alface, que tinha um estojo de plástico e cheirava a novo quando o estreei no Lido. E eu senti que a minha vida estava a mudar quando entrei na água com um biquíni que não tinha sido de alguém antes de ser meu. Não foi só por isso, eram também as cartas que recebia e as que metia no correio para as amigas que tinham ficado em Lisboa.

E quase todas as semanas vinham dar ao Laranjal as histórias novas, o que andavam a ler, as aventuras de férias pelo Algarve, também falavam de rapazes e perguntavam pelas tias, pelos meus pais e pelo meu irmão. Eu escrevia as respostas em cima da cama em papel de carta e contava o que havia de novo na ilha que, por essa altura, lhes parecia exótica e diferente de tudo o que conheciam. Os anos seguintes e as férias seguintes iam trazê-las até ao Laranjal, mas, por enquanto, naquele verão de 1990, estávamos todas ainda a perceber que pessoas éramos, se aquelas conversas na mesa da cantina ou no bar antes das aulas iam dar lugar a uma amizade ou se íamos seguir caminhos diferentes.

O isolamento do secundário estava a quebrar-se e isso fazia de mim outra pessoa. Eu era outra desde que me metera no avião para Lisboa e agora havia mais gente além da família. O acaso juntou quase 100 desconhecidos num curso e num anfiteatro e, desses, alguns queriam partilhar as suas histórias, as aventuras e as suas ideias comigo, a Marta da Madeira. Primeiro lá, na faculdade, nos jantares de turma, em passeios e idas ao cinema, depois nas férias, naquele Agosto quente e no Setembro chuvoso que se seguiu, enquanto no Médio Oriente a tensão subia e a América se mobilizava para a guerra. Não sei sequer se se falou disso nessas cartas.

Em casa nem a minha mãe pensou muito no caso e ela levava as notícias muito a sério. A esperança era maior e estávamos todos felizes. O meu irmão escrevia num jornal, eu estava na universidade, o meu pai tinha trabalho e até a minha prima Ana decidira tirar carta e comprar um carro. E aos domingos à tarde a minha tia Teresa tirava chocolates de dentro da gaveta do móvel da sala para acompanhar o lanche e acabávamos o dia lá a falar todos ao mesmo tempo e por cima do que dava na televisão. Eu fazia o caminho para casa de braço dado com a minha mãe ou com o meu pai, cheia daquela sensação de que os pais são eternos. Não ia ser assim, mas naquele Verão de 1990 não havia maneira de saber isso.

Não se pensa de outra maneira aos 19 anos, pelo menos eu não pensei. E como podia ser diferente se tinha amigos, o carinho das tias e um biquíni verde alface a cheirar a novo para levar para a praia nesse Verão.