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Madeira

Montenegro fala para fora, mas a Madeira também ouviu

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A ausência de qualquer referência à Madeira no discurso de abertura do Congresso do PSD não passou despercebida. Sobretudo porque o líder nacional escolheu dedicar uma parte significativa da sua intervenção à ideia de independência política, resistência à pressão, capacidade de decisão e atacar o ‘inimigo’ externo [PS e Chega] e sublinhar que "seguimos juntos".

“Estamos aqui com firmeza, sem ceder a nenhum tipo de pressão”, afirmou Luís Montenegro perante os congressistas, numa passagem que foi lida como uma resposta directa à oposição, mas que admite interpretações mais amplas dentro da própria família social-democrata.

A frase surge, também, num contexto em que o PSD-M, liderado por Miguel Albuquerque, tem intensificado a pressão pública sobre Lisboa para resolver um conjunto de reivindicações que continuam sem resposta definitiva. A revisão da Lei das Finanças Regionais, o futuro do Subsídio Social de Mobilidade, a regularização das dívidas relativas aos subsistemas de saúde, a terceira fase do novo Hospital Central e Universitário da Madeira ou a revisão constitucional para aprofundar a autonomia são dossiês que Albuquerque tem mantido permanentemente em cima da mesa.

O facto de Montenegro ter escolhido enfatizar que governa “sem ceder a pressões” acaba por ganhar inevitável leitura política à luz desta relação. Porque existe ruptura entre as duas lideranças. Isso é evidente. Os sinais públicos dos últimos meses apontam para divergências institucionais. Mas porque a Madeira continua a ser, dentro do universo social-democrata, uma voz reivindicativa e exigente perante o Governo da República, não faz desviar o olhar de Montenegro.

A ironia política do momento está precisamente aí. Enquanto Albuquerque tem procurado demonstrar que não abdica de exigir respostas mesmo perante um Governo da sua cor política, Montenegro parece querer afirmar que as decisões nacionais não serão tomadas por pressão de ninguém, sejam adversários, parceiros ou aliados.

O silêncio sobre a Madeira ganha, por isso, relevância acrescida. Num congresso em que o líder social-democrata falou de ambição nacional, de coesão territorial, de oportunidades e de futuro, não houve uma única referência à Região, aos seus desafios específicos ou às matérias que continuam pendentes entre Lisboa e o Funchal.

A ausência vale mais porque acontece poucos dias depois de Albuquerque ter regressado dos Estados Unidos e numa altura em que o presidente do Governo Regional volta a assumir um papel central no PSD nacional, presidindo à Mesa do Congresso. A imagem de unidade ficou simbolicamente selada no abraço entre os dois líderes. Mas a fotografia da sintonia política não elimina as diferenças de agenda.

Se o abraço simbolizou a estabilidade da relação entre Lisboa e o Funchal, o discurso mostrou que as reivindicações madeirenses continuam à espera de tradução prática. E, em política, há momentos em que aquilo que não é dito acaba por ser tão relevante como aquilo que é dito. Neste primeiro discurso de Montenegro ao Congresso, a Madeira foi precisamente essa ausência.