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Dividir para reinar

É cada vez mais evidente o desapreço com que o Governo da República contempla as Regiões Autónomas e, sintomaticamente, esse alheamento tem a sua maior expressão na liderança errante de Luís Montenegro. Discursos bonitos, conjuntos de intenções e um nó de gravata sempre impecável. Mas, na hora das decisões, há uma garantia que se tem tornado denominador comum: os madeirenses e os açorianos saem prejudicados.

Na minha ingenuidade, quis crer durante demasiado tempo que esta postura do Primeiro-Ministro devia-se ao desconhecimento relativo de alguns dossiers locais e que o tempo – esse perigoso aliado – trataria de aproximar os decisores de Lisboa da governação regional, sobretudo por partilharem a mesma cor política. Ora, as trapalhadas com o Subsídio Social de Mobilidade e a correspondente presunção de que a continuidade territorial é um favor fastidioso começaram por revelar o que estes senhores verdadeiramente pensam das Regiões Autónomas. As consequências deste desastre estendem-se, por exemplo, à recente suspensão do programa ‘Estudante Insular’, colocando temporariamente em causa as finanças das famílias madeirenses que têm filhos a estudar fora da Região. Nas comemorações dos 50 anos da Autonomia da Madeira, o Ministro da Presidência veio ao Funchal ensaiar um discurso que já ouvimos centenas de vezes e do qual não se extrai qualquer garantia de mudança. António Leitão Amaro falou da revisão da Lei das Finanças Regionais como quem se refere àqueles caixotes que temos na garagem há décadas e que, um dia, pode ser que tenhamos pachorra de arrumar.

Os exemplos que aqui elenco refletem toda uma peça que vai a palco com um pano de fundo para mim cada vez mais evidente: o Governo da República está disponível para continuar a destratar os portugueses insulares, desde que essa segregação traga ganhos de popularidade no retângulo. Dividir para reinar não é propriamente novidade mas, aplicando a fórmula nestes moldes, veremos no futuro próximo se compensará a Luís Montenegro a guerra que decidiu travar com meio milhão de portugueses. A votação residual e historicamente embaraçosa que obteve na Madeira, nas eleições internas do mês passado, materializou um sinal inquestionável da censura regional à atuação da liderança nacional. Estou certo de que outros tantos se seguirão com o avançar do calendário político e assumo particular curiosidade em verificar se a 12 de julho, na Herdade do Chão da Lagoa, haverá o descaramento olímpico de querer fazer parte de uma festa que celebra também os mais invioláveis valores da Autonomia.

Inquieta-me sobretudo que todos estes posicionamentos sejam assumidos, a meu ver, de forma estratégica e premeditada por uma governação nacional do PSD – o mesmo partido que governa Madeira e Açores. Dá-nos o alerta para nunca tomar como garantida a sensibilidade da estrutura nacional do PSD face às questões das ilhas. Mas, tal como nos últimos 50 anos, os madeirenses continuarão a saber distinguir os dirigentes nacionais que “têm a Madeira no coração” daqueles que não passam de “cubanos”.