Da lavagem do carro à auto-habitação

Há dias fui lavar o carro. Nada de especial. Um serviço simples: lavar por fora, aspirar por dentro e seguir viagem. Durante muitos anos, isto custava 8 euros. Chegávamos, entregávamos as chaves, tomávamos um café e, pouco depois, o carro aparecia limpo.

Depois vieram os 10 euros. A seguir os 12. Mais tarde os 15. Depois os 18. Desta vez pediram-me 20 euros. E nem sequer era chegar e lavar. Havia carros à frente. Se quisesse evitar a espera, podia reservar para o dia seguinte.

Confesso que fiquei a pensar.

Não é apenas o preço da lavagem do carro. É a sensação de que tudo aquilo que durante décadas foi considerado normal se está a transformar em luxo. Lavar o carro, ir ao café, jantar fora, chamar um canalizador ou um eletricista, alugar uma casa, fazer compras para a semana. Tudo parece ter entrado numa corrida de preços que ninguém consegue acompanhar.

Dizem-nos que é a inflação. Dizem-nos que os custos aumentaram. Dizem-nos que falta mão de obra. E tudo isso é verdade. Mas também é verdade que os salários não parecem ter recebido o mesmo memorando.

O mais curioso é que pagamos mais e, muitas vezes, esperamos mais. Antigamente os comerciantes procuravam clientes. Hoje os clientes procuram vagas. Antes bastava aparecer. Agora é preciso marcar hora para tudo. Qualquer dia será necessário fazer uma candidatura online para conseguir uma lavagem automóvel.

E foi então que me ocorreu uma reflexão mais séria. Vivemos uma crise da habitação tão grave que há pessoas a considerar viver em carrinhas, autocaravanas ou até automóveis adaptados. Talvez estejamos perante uma nova realidade social. Depois da habitação, surge a auto-habitação.

Se a casa está cara demais, resta transformar o carro em apartamento. E, nesse caso, pagar 20 euros para o lavar já não parece tão absurdo. Afinal, não estamos a limpar um veículo. Estamos a fazer a manutenção da residência principal.

Brincadeiras à parte, existe um sentimento crescente de que a vida comum está a deixar de ser comum. O problema não é uma lavagem de carro custar 20 euros. O problema é quando esse aumento se junta ao da renda, da prestação da casa, da eletricidade, da água, dos seguros, dos combustíveis e da alimentação.

Cada aumento, isoladamente, parece suportável. Todos juntos transformam-se numa avalanche.

Talvez seja por isso que tantas pessoas olham para o mundo atual e perguntam: “Está tudo louco?” Talvez não esteja. Talvez esteja apenas demasiado caro.

A lavagem do carro é apenas o exemplo mais recente de uma sensação que se espalhou a muitos aspetos da vida quotidiana.

António Rosa Santos