É preciso saber travar
1. As imagens dos motociclistas a circularem na Via Rápida a velocidades próximas dos 240 km/h chocaram muita gente. Deviam chocar ainda mais pelo que simbolizam: a crescente convicção de que há quem possa fazer tudo sem consequências. Não se trata apenas de excesso de velocidade. Trata-se de uma cultura de irresponsabilidade que vai ganhando espaço e que, demasiadas vezes, termina em tragédia. Como também aconteceu na semana passada, em que um jovem perdeu a vida, num ápice e sem culpa nenhuma.
O delegado regional da Prevenção Rodoviária Portuguesa identificou correctamente, ao DIÁRIO, o essencial: a Madeira enfrenta, antes de mais, um problema cultural. Não basta discutir radares ou agravar coimas se a sociedade continuar a aceitar a criminalidade rodoviária como uma inevitabilidade e as mortes nas estradas como simples estatística.
Os números deste ano são demasiado expressivos para continuarmos na mesma rotina: nove mortos, 39 feridos graves e 716 feridos ligeiros. Cada um destes números representa uma família destruída, uma vida alterada para sempre ou uma incapacidade permanente. Não são apenas acidentes. São consequências de comportamentos que persistem porque continuam a encontrar demasiada tolerância social.
Também não vale a pena esconder os factores de risco. O álcool continua presente, o excesso de velocidade mantém-se como um dos maiores inimigos da segurança rodoviária, o telemóvel distrai, os modernos sistemas de entretenimento retiram atenção à estrada e há ainda um excesso de confiança alimentado pela velha convicção de que “nunca me acontecerá”. É precisamente esse sentimento de impunidade que precisa de ser combatido. Concordamos igualmente que a solução não passa apenas pelos radares. A educação deve preceder a punição. Mas educação sem fiscalização transforma-se rapidamente numa mera intenção. Há muito que a presença policial se tornou escassa. Encontrar patrulhas a pé no centro do Funchal quase merece alvíssaras. Em compensação, abundam veículos estacionados sobre passeios, em passadeiras, em praças de táxis ou em locais proibidos, perante a resignação de quem diariamente vê a infracção compensar.
Quando a probabilidade de ser fiscalizado é reduzida, o prevaricador deixa de recear a lei. E quando isso acontece repetidamente, instala-se a convicção de que vale a pena infringir as regras. O Estado perde autoridade e os cidadãos cumpridores sentem-se enganados.
A resposta, por isso, terá de ser dupla: reforçar a educação rodoviária desde cedo, com campanhas permanentes e coordenadas, como defende a Prevenção Rodoviária Portuguesa, mas também devolver visibilidade às forças policiais e restaurar a autoridade do espaço público. Porque uma estrada segura não depende apenas do alcatrão; depende sobretudo da certeza de que as regras existem para ser cumpridas.
2. O Verão tem trazido um fenómeno curioso à nossa Região. Enquanto a maioria dos cidadãos procura alguns dias de descanso, há políticos, sobretudo autarcas, façamos-lhe justiça, que parecem incapazes de desligar a máquina da propaganda. Multiplicam visitas, replicam anúncios (já conhecidos, mas com outras vestes e ângulo), vídeos e fotografias. Facebook, Instagram, TikTok e YouTube transformaram-se numa extensão dos gabinetes, onde qualquer pintura de um muro ou limpeza de uma vereda é apresentada como acontecimento histórico.
Férias não são um sinal de fraqueza. São uma necessidade de quem tem responsabilidades. Governar não é viver permanentemente em campanha. É pensar antes de anunciar, observar antes de decidir e aprender antes de repetir as mesmas fórmulas. Talvez alguns autarcas devessem aproveitar estes dias para conhecer outras cidades, outras soluções urbanísticas, outras políticas de mobilidade, de habitação ou de gestão do espaço público. Abrir horizontes nunca fez mal a ninguém. Regressariam certamente com menos fotografias para publicar e, quem sabe, com mais ideias para concretizar. Isso, sim, seria serviço público. Num tempo em que a ditadura da imagem parece sobrepor-se a tudo o resto, impõe-se recuperar o bom senso, travar os ímpetos populistas e repensar a forma de comunicar. Comunicar bem não é inundar as redes sociais com o mesmo anúncio repetido dez vezes, mudando apenas o enquadramento ou um pormenor irrelevante. É seleccionar o que realmente importa, respeitar a inteligência dos cidadãos e compreender que a credibilidade vale sempre mais do que a omnipresença.