Investimento directo estrangeiro tem peso na economia portuguesa
Banco de Portugal analisa o contributo das empresas com investimento directo estrangeiro para as contas externas de Portugal.
No início deste mês de Junho, o Banco de Portugal publicou uma análise sobre o papel das empresas com investimento directo estrangeiro nas contas externas de Portugal ao longo de 10 anos, entre 2015 e 2025. A conclusão é que o investimento directo estrangeiro “tem um peso relevante na economia portuguesa”.
No final de 2025, o stock de investimento directo estrangeiro em Portugal ascendia a 213,7 mil milhões de euros, o equivalente a 70% do Produto Interno Bruto (PIB). Em 2008, esse peso era de 46% do PIB.
Para efeitos desta análise, o Banco de Portugal considerou empresas com investimento directo estrangeiro as entidades residentes que recebem, directa ou indirectamente, investimento directo do exterior. São apenas tratados os efeitos directos destas empresas.
Assim, o Banco de Portugal concluiu que os rendimentos pagos ao exterior reduzem a capacidade de financiamento da economia portuguesa. “As empresas com investimento directo estrangeiro remuneram o capital investido por accionistas não residentes”, pagamentos registados como ‘rendimentos pagos ao exterior’, que corresponderam, em média, a 4% do PIB. “Por serem pagos ao exterior, estes rendimentos contribuem para reduzir a capacidade de financiamento da economia portuguesa perante o resto do mundo”, esclarece o Banco de Portugal.
Estas empresas têm um peso relevante nas exportações, mas importam mais do que exportam. Entre 2015 e 2025, foram responsáveis, em média, por 44% das exportações de bens e serviços, o equivalente a 19% do PIB. No entanto, estas empresas também tiveram um peso significativo nas importações. No mesmo período, representavam, em média, 55% das importações de bens e serviços, o correspondente a 24% do PIB.
Como importaram mais do que exportaram, acabam por apresentar sempre um saldo negativo na balança comercial. Em média, esse saldo correspondeu a -4,6% do PIB. Nas empresas sem investimento directo, o saldo ficou próximo do equilíbrio, em cerca de -0,4% do PIB. Pode ler-se na análise do Banco de Portugal que: “O impacto das empresas de investimento directo no saldo da balança comercial é, assim, mais significativo, apesar de representarem, em média, apenas cerca de 20% das empresas consideradas ao longo do período analisado.”
Enquanto nos bens, estas empresas importam mais do que exportam, de notar que nos serviços se verifica o contrário. Na balança de serviços, tanto as empresas com investimento directo estrangeiro como as restantes empresas apresentaram saldos positivos. Ou seja, exportaram mais serviços do que importaram. No caso das empresas com investimento directo estrangeiro, o saldo positivo tornou-se particularmente relevante nos anos mais recentes.
A análise por sector de actividade mostra que o comportamento das empresas varia consoante a actividade que desenvolvem. Nas indústrias, tanto as empresas com investimento directo estrangeiro como as restantes empresas apresentaram saldos positivos na balança de bens. Ainda assim, as empresas com investimento directo estrangeiro registaram, em média, saldos superiores em 0,8 pontos percentuais do PIB, o que aponta para uma maior orientação exportadora.
No sector do comércio, o saldo foi sempre negativo nos dois grupos de empresas. Este resultado é consistente com uma actividade mais assente na importação de bens para venda no mercado interno. O padrão foi mais acentuado nas empresas com investimento directo estrangeiro, que apresentaram níveis de importação mais elevados.
Na balança de serviços, o contributo das empresas com investimento directo estrangeiro distingue-se do das restantes empresas nas actividades de consultoria, informação e comunicação e no sector dos transportes e armazenagem.
Nas actividades de consultoria, informação e comunicação, as empresas com investimento directo estrangeiro apresentaram saldos positivos mais elevados do que as restantes empresas. Este resultado reforçou o saldo positivo da balança de serviços, sobretudo a partir de 2020, acompanhando o crescimento destas actividades.
No sector dos transportes e armazenagem, aconteceu o contrário. Apesar de ambos os grupos registarem saldos positivos, o saldo foi mais elevado nas empresas sem investimento directo estrangeiro. Neste sector, foram as empresas sem investimento directo estrangeiro que mais contribuíram para a capacidade de financiamento de Portugal perante o exterior.
Assim, o impacto das empresas com investimento directo estrangeiro nas contas externas depende da dimensão de análise. O papel destas empresas é relevante, mas não pode ser interpretado de forma linear. Para compreender o impacto nas contas externas portuguesas, é necessário analisar o seu efeito por via dos rendimentos pagos ao exterior e das exportações e importações de bens e de serviços, bem como as diferenças entre sectores de actividade.
Desta análise conclui-se que as empresas com investimento directo estrangeiro têm um impacto relevante, embora heterogéneo nas contas externas: contribuem significativamente para as exportações, mas apresentam, em termos líquidos, um saldo comercial negativo e, para além disso, reduzem a capacidade de financiamento da economia através dos rendimentos pagos ao exterior. No entanto, o sector em que operam influencia o seu peso nas exportações e nas importações de bens e serviços: o sector da indústria exporta mais do que importa, e observa-se o contrário para o sector do comércio. Banco de Portugal