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Digital News Report Portugal 2026 aponta forte preocupação com a desinformação

Estudo traça um retrato detalhado dos hábitos de consumo de notícias dos portugueses utilizadores de Internet

O Digital News Report Portugal é um relatório anual produzido pelo OberCom – Observatório da Comunicação desde 2015, dedicado à análise da relação dos portugueses com os conteúdos informativos, as marcas noticiosas e o jornalismo. Portugal integra o conjunto de países que publicam relatórios nacionais em simultâneo com o relatório global do Reuters Institute for the Study of Journalism (RISJ), da Universidade de Oxford.

O trabalho de campo da edição de 2026 decorreu entre 6 de Janeiro e 20 de Fevereiro. Os responsáveis pelo estudo assinalam que os resultados podem reflectir o impacto da agenda mediática do período analisado, incluindo acontecimentos políticos, processos eleitorais, conflitos armados ou temas relacionados com a saúde pública.

Neutralidade valorizada, mas pouca procura de contraditório

Os portugueses continuam a privilegiar fontes de informação percepcionadas como neutras e sem um ponto de vista específico. A maioria dos inquiridos prefere notícias provenientes de fontes consideradas independentes ou não alinhadas com posições particulares.

Em contrapartida, a preferência por fontes que confirmem as próprias convicções é menos expressiva e a procura deliberada de perspectivas divergentes permanece residual. Os dados sugerem que a credibilidade jornalística continua fortemente associada à imparcialidade e ao distanciamento editorial.

No contexto internacional, Portugal aproxima-se dos mercados europeus onde a neutralidade editorial é mais valorizada. O país apresenta uma percentagem superior à média global de preferência por fontes sem ponto de vista específico (53%) e permanece abaixo da média na procura de fontes que contrariem opiniões pessoais.

Serviço Público de Media mantém forte legitimidade

As atitudes dos portugueses em relação ao Serviço Público de Media (SPM) continuam a assentar numa base de legitimidade social robusta e superior à média global.

A cobertura noticiosa do SPM é predominantemente avaliada de forma positiva e Portugal surge ao lado dos países nórdicos nos indicadores comparativos mais exigentes. Quando existe crítica, esta tende a centrar-se menos na existência do serviço público e mais em aspectos como a independência editorial, o pluralismo ou o enquadramento dos temas abordados.

Portugal continua entre os países que mais confiam nas notícias

Portugal mantém-se entre os mercados com níveis mais elevados de confiança na informação jornalística. Em 2026, 51% dos inquiridos afirmam confiar nas notícias em geral, valor significativamente superior à média global de 37%.

No panorama internacional, o país destaca-se como uma excepção positiva no Sul da Europa, aproximando-se dos mercados do Norte europeu. O indicador de confiança líquida atinge os +30 pontos, superando países como Alemanha, Irlanda ou Canadá.

Desinformação preocupa mais os portugueses do que a média global

A preocupação com a desinformação online continua a crescer e Portugal posiciona-se entre os países mais atentos ao fenómeno.

Em 2026, 76% dos inquiridos afirmam estar preocupados com a distinção entre conteúdos verdadeiros e falsos na Internet, valor superior à média global de 62%. Portugal integra o grupo dos mercados com níveis mais elevados de preocupação, ao lado de Nigéria, Quénia, Austrália e Estados Unidos.

No contexto do Sul da Europa, o país destaca-se igualmente acima de Espanha, Grécia, Turquia, Itália e Croácia.

Um dos resultados mais relevantes mostra ainda que a preocupação com a desinformação é mais intensa entre quem confia nas notícias. Entre os portugueses que manifestam confiança na informação jornalística, 85% revelam preocupação com a desinformação; entre os que não confiam, esse valor desce para 69%.

A televisão continua a ser o principal eixo informativo

Apesar da crescente digitalização do consumo mediático, a televisão mantém uma posição central no acesso às notícias.

Em 2026, 71% dos inquiridos afirmam ter utilizado a televisão para acompanhar notícias na semana anterior ao inquérito, enquanto 59% a identificam como principal fonte de informação. Trata-se do valor mais elevado entre os 48 mercados analisados, superando a média global e todos os restantes países europeus incluídos no estudo.

Os resultados confirmam que a televisão continua a desempenhar um papel estruturante nas rotinas informativas dos portugueses.

Redes sociais relevantes, mas com consumo noticioso selectivo

As redes sociais mantêm uma presença forte no quotidiano digital dos portugueses, embora o seu papel como fonte de notícias seja mais selectivo.

Em termos de utilização geral, destacam-se WhatsApp (79%), Facebook (71%), YouTube (64%) e Instagram (61%). No acesso específico a notícias, o Facebook lidera com 42%, seguido do WhatsApp (30%), Instagram (25%) e YouTube (23%).

O TikTok continua a ganhar relevância enquanto espaço de contacto com conteúdos noticiosos, embora permaneça abaixo das principais plataformas no conjunto da população.

Um dado relevante é o facto de 20% dos inquiridos afirmarem não utilizar qualquer rede social para se informarem, apesar de apenas 2% declararem não usar redes sociais em geral, demonstrando que presença digital e consumo noticioso não são fenómenos equivalentes.

Confiança nas notícias obtidas por IA é de 24%

A confiança em notícias obtidas através de sistemas de inteligência artificial situa-se nos 24%, acima das redes sociais (21%), mas muito abaixo da confiança atribuída às notícias em geral (51%) e aos motores de busca (40%).

O uso de chatbots para fins noticiosos permanece reduzido, sendo utilizado sobretudo para resumir conteúdos, esclarecer dúvidas ou contextualizar informação, e não como substituto directo do jornalismo. Os resultados sugerem que a IA funciona actualmente mais como camada adicional de mediação do que como alternativa às marcas noticiosas.

Pagamento por notícias digitais continua residual

Portugal permanece entre os mercados com menor predisposição para pagar por notícias online.

Em 2026, apenas 8% dos inquiridos afirmam ter pago por conteúdos noticiosos digitais durante o ano anterior, valor significativamente inferior à média global de 17% e muito distante dos registados em países como Noruega (40%), Suécia (32%) ou Finlândia (23%).

Mesmo no contexto europeu mais próximo, Portugal situa-se no extremo inferior da distribuição, alinhado com Itália e ligeiramente abaixo de Espanha. Os dados confirmam que a monetização directa do jornalismo digital continua a assentar numa base reduzida, constituindo um dos principais desafios para a sustentabilidade económica do sector.