“Doomscrolling”: ambiente perfeito para a desinformação
As redes sociais otimizam os conteúdos através dos algoritmos e não querem saber se as publicações são verdadeiras ou falsas
Quem já não se sentiu refém do telemóvel? Deitar-se e não sentir muito sono. Pegar no telemóvel pensando que o sono vai chegar. Ficar colado ao ecrã, fazer ‘scroll’ infinito (descer infinitamente numa página) e encontrar publicações consecutivas sobre vários assuntos. Os algoritmos encarregam-se de avaliar as nossas preferências e, como tal, surgem mais e mais conteúdos associados a determinadas temáticas, o que aumenta o nosso envolvimento. A curiosidade, a ansiedade ou até o medo prendem-nos muitas vezes a conteúdos negativos e ficamos absorvidos, procurando mais informação. Sentimos necessidade de nos atualizarmos e até mesmo de participar de alguma forma. Vemos vários vídeos, lemos publicações, notícias e todos os comentários, por mais absurdos que sejam. Tentamos saber mais. Partilhamos. Entretanto, apercebemo-nos que estamos ainda com menos sono e, mesmo cansados, continuamos a navegar. Por vezes, o assunto toca-nos de tal forma que, mesmo depois de desligar o ecrã, ficamos acordados porque a cabeça está inevitavelmente a dar voltas.
Este tipo de comportamento denomina-se de “doomscrolling” ou “doomsurfing” e é definido cientificamente como o ato de passar muito tempo a consumir grandes quantidades de conteúdos negativos online. É uma dependência da Internet que está associada ao consumo excessivo de conteúdos, sobretudo vídeos de curta duração, por um longo período, o que faz perder a noção do tempo e origina cansaço, reduzindo o pensamento crítico e afetando a saúde mental das pessoas, sobretudo a dos adolescentes.
Esta prática, tóxica porque afeta o cérebro, não é necessariamente um sinal de fraqueza, mas um instinto de sobrevivência: estamos em constante alerta ao perigo.
Contudo, porque as informações verdadeiras e as falsas surgem misturadas no ambiente digital e não há muitas vezes capacidade ou tempo para as discernir, a probabilidade de nos depararmos com desinformação é grande. Para colmatar, quando se trata de emoções (choque, medo, raiva), os algoritmos favorecem este tipo de conteúdos, pelo que a desinformação se serve destes para se espalhar mais rápido.
Portanto, o “doomscrolling” cria o ambiente perfeito para a disseminação da desinformação, uma vez que junta excesso de informação, emoção intensa, pouca verificação e ausência de pensamento crítico.
E porque tudo é um negócio, as redes sociais otimizam os conteúdos através dos algoritmos e não querem saber se as publicações são verdadeiras ou falsas. Só lhes importa manter-nos colados ao ecrã.
Como consequência, de tanto “doomscrolling”, podemos mesmo sentir-nos exaustos e desistir de ter uma participação ativa na sociedade. No entanto, a solução não passa por deixar de estar presentes no mundo digital. Urge uma verdadeira aposta em literacia mediática, que consista em ensinar aos jovens, mas também aos adultos, como estar na Internet.
Precisamos de saber identificar a manipulação emocional, ou seja, perceber quando um título apelativo ou uma imagem exagerada que chama a atenção ao provocar revolta, raiva ou pânico (“clickbait”) não tem a intenção de informar, mas sim de conseguir um clique.
Também é essencial habituarmo-nos a substituir o hábito de fazer ‘scroll’ infinito por outros que consistam em abrir os conteúdos num novo separador para verificar a fonte e validar a informação.
Por último, importa percebermos como funciona o negócio no mundo digital, sobretudo nas redes sociais. Como resume a máxima usada para criticar este tipo de plataformas, “se não estás a pagar pelo produto, tu és o produto”. De facto, na maior parte das vezes, o produto vendido nas redes sociais é a nossa interação, a nossa atenção e as nossas emoções.