O ano em que minha mãe me deu o Verão
A dona Celina não esperava tanto atrevimento e, de castigo, fez-me tratar da matrícula e ainda esteve umas semanas amuada
O dia em que enfrentei a minha a minha mãe e optei por seguir letras definiu o meu futuro e a pessoa em que me transformei. Tinha 15 anos e fora até aquele instante a menina que a dona Celina queria transformar em médica ou professora. As circunstâncias convenceram as minhas tias e a minha mãe de que não seria complicado orientar-me a vida. A adolescência trouxe-me um corpo que não pedira e uma timidez que me deixava o cérebro em branco sempre que me via em frente de desconhecidos. O conjunto não parecia promissor. Nem as notas do 9º ano eram brilhantes, nem se esperava muito da gordinha que dava a impressão de estar sempre em luta com a roupa. Ou por estar larga ou muito apertada.
A dona Celina não esperava tanto atrevimento e, de castigo, fez-me tratar da matrícula e ainda esteve umas semanas amuada. Eu ia acrescentar que me obrigou a varrer o quintal aos sábados e a tratar da casa, mas isso já fazia parte da minha educação desde os 12 anos. Cá em cima, no Laranjal, as meninas aprendiam cedo a lavar, varrer, limpar o pó e, claro, a bordar. A minha mãe só me dispensou disso. Quando, depois de me meter uma agulha e um dedal nas mãos, percebeu que mais valia deixar-me a tarde inteira a arrumar a cozinha. Das minhas mãos suadas não ia sair coisa que se pudesse apresentar na casa de bordados.
Quando cheguei a casa com as notas finais do 10º ano, tínhamos enterrado já o machado de guerra e, embora tivesse torcido o nariz aos meus 16 e 17 valores por me considerar capaz de mais, a minha mãe era justa e eu merecia um prémio. Por a ter enfrentado, por ter provado que estudar Geografia, Literatura e História combinava melhor comigo e por não me ter desviado do caminho, da ideia de futuro, que ela não sabia qual era, mas que intuía que estava dentro da minha cabeça. E a nossa vida estava melhor, a comissão dos bordados rendia mais e não faltava trabalho ao meu pai. Outra pessoa teria comprado umas sapatilhas; a minha mãe preferiu dar-me o Verão.
Se tinha escolhido a área, feito a matrícula e chegado a casa com aquelas notas, então estava na altura de ir à praia sozinha, os dias que quisesse e o tempo que quisesse. E eu resgatei um biquíni do fundo do armário da minha prima Ana, troquei os cadernos e os livros da mochila pela toalha e o lanche de pão com queijo e fiz-me ao caminho do Lido, que era praia para onde todos os adolescentes convergiam naquele ano. Lembro-me de chegar de manhã cedo e ver a piscina a encher, lembro de saltar das pranchas, de nadar até ao Ilhéu e parar para tomar fôlego nas cordas e de queimar o céu da boca com uma waffle com chantilly. E de sentir a água gelada na cabeça enquanto lavava o cabelo antes de sair do Lido e entregar o cesto onde se guardava a roupa. E de, no regresso, pedir boleia na Estrada Monumental aos carros que passavam.
Aqueles dias inteiros ao sol, entre pessoas que nunca tinha visto, miúdos de outras escolas e estudantes universitários de férias, fez-me querer um futuro como o deles, o do estudantes mais velhos, que jogavam às cartas e pareciam tão adultos, com histórias de viagens de avião, exames, quartos alugados e vidas independentes. E aquele estilo, aquele ar que os tornava a todos mais bonitos, mais inteligentes, mais que tudo o que conhecia, entre o Lido e o Laranjal, o Girassol e o pátio do Liceu. A minha mãe ainda não sabia, mas eu estava prestes a enfrentá-la mais uma vez. Eu não ia ser professora, ia ser outra coisa, quem sabe jornalista ou advogada, ainda não estava claro.
Naquele Verão, aquele que minha mãe me deu como prémio pelas notas do 10º ano, começou a desenhar-se o sonho de estudar em Lisboa ou Coimbra ou Porto ou onde fosse, que tanto dava. O que estava decidido é que ia e isso definiu tudo.