Parva à primeira vista
Segunda-feira estava no aniversário de uma grande amiga e a conversa esteve invariavelmente à volta de uns frustrados ou corajosos que vão para a televisão casar com desconhecidos. Em 20 pessoas, 18 conheciam o Carlos com aspecto asqueroso, a Quinita que usava prótese e a trupe toda. Fiquei pasmada. Afinal, entre doutorados, empresários e juristas de renome, havia gente que se recusava a ver o Trump e as suas loucuras. Estávamos a comentar ao que chegou um país, até que alguém, que representava a minoria que não via o programa, se admirou por estarmos todos a falar da vidinha alheia. Sempre é melhor do que ver a concorrência, com um bando de inúteis. Estes pelo menos sonham em ter alguém para aquecer os pés na velhice (digo eu).
Ninguém, entre tanto canudo universitário, se envergonhava por conhecer as personagens e criticava as más escolhas dos especialistas, dando palpites sobre quem devia estar com quem, porque afinal os casais estavam todos trocados. Eu acho que o que está trocado é o planeta, que empurra as pessoas para os programas de entretenimento que nos fazem rir da cozinheira de Évora ou do velhote de Lisboa, que mentiu sobre a idade. Um retrato da sociedade portuguesa e ainda bem, porque ninguém se quer chatear no fim do dia com a crise, a guerra e o doido do americano. Por falar nele, descobri há uns tempos que o menor dos nossos problemas é as pessoas se identificarem com uma coisa que não é o feminino ou o masculino, mas que ainda ninguém sabe o que é.
E não, não são fake news. Chamam-se teriantropos e são pessoas que se identificam espiritualmente ou psicologicamente como animais. Usam cauda, ladram, fazem xixi com o pé erguido e ainda comem no tacho. São gatos, cães, bodes, eu sei lá o que vi. Só sei que estava atrasada, porque as primeiras referências remontam aos anos 80/90, quando a internet permitiu às pessoas ser o que quisessem. Vi umas reportagens em telejornais e juro que vi um adolescente saltar para um carro com a agilidade (e a cauda) de uma raposa.
Podiam ter ido fazer cirurgias estéticas com a tal esperta que anda pela Rua do Aljube a estragar lábios e queixos, para não falar de carteiras e poupanças a meia cidade. Promete licenciaturas em medicina dentária em três anos, mesmo que as pessoas só tenham o 3º ciclo. Não sei se usa a prótese da Quinita de Évora para ensinar, mas continua impávida e serena a praticar ao lado da Sé. Essa otária podia treinar nos teriantropos, que de certeza não se importavam de sair de lá com a língua pendurada e a morder a cauda ou… as bolinhas. E com a PSP a saber tudo – não é de agora – e o mundo a continuar o seu rumo. Depois admiram-se se as pessoas com canudos, doutoramentos e empresas continuarem a apreciar meia dúzia de doidos (por sinal vários empresários), a ocupar as noites de quem ainda se procura divertir com coisas sérias.