DNOTICIAS.PT
Artigos

O Fantasma da Reforma e o Milagre do Silêncio Geringoncista

Há duas coisas que parecem assustar profundamente a esquerda e os sindicatos que gravitam na sua órbita: a perspetiva de os portugueses terem liberdade de escolha e a remota possibilidade de um trabalhador gerir o seu tempo sem precisar do carimbo de uma comissão de trabalhadores. Com a chegada do programa “Trabalho XXI”, a máquina da indignação profissional foi, como seria de esperar, oleada à pressa. O diagnóstico do costume? “O fim do mundo laboral”, “o regresso ao século XIX”, “a escravatura moderna com Wi-Fi”.

É uma ladainha gasta, cantada em tom monocórdico, que visa essencialmente atirar areia para os olhos de um povo que já está demasiado habituado a ver os mesmos atores a encenar a mesma peça.

Vamos por partes, despindo a demagogia para ver o que realmente está escrito no papel. A esquerda e as suas centrais sindicais de estimação decidiram fixar o olhar nas “garras do patronato”. Mas o que o pacote laboral propõe, na verdade, é um choque de realidade num mercado que teima em viver no passado. Falam do banco de horas individual como se fosse um pelourinho medieval, omitindo deliberadamente que a medida permite ao próprio trabalhador — sim, esse ser dotado de discernimento que a esquerda acha que precisa de ser tutelado até para respirar — negociar o seu tempo para ir buscar os filhos à escola ou gozar uma folga quando lhe dá jeito. Pelos vistos, para os sindicatos, a flexibilidade só é boa se passar pela burocracia de um plenário que dura três horas e termina com uma palavra de ordem dos anos 70.

Choram também pelo alargamento dos contratos a prazo para jovens. A falácia aqui é sublime: preferem manter os recém-licenciados no desemprego crónico ou na informalidade dos “recibos verdes” desprotegidos a permitir que as empresas os contratem com um vínculo formal, ainda que a termo, para ganharem a primeira experiência de relevo. Para a cartilha ideológica, o purismo da teoria vale sempre mais do que a carteira dos cidadãos. É mais nobre estar desempregado segundo as regras de Marx do que trabalhar segundo as regras do mercado.

No fundo, esta resistência feroz à modernização expõe a verdadeira vocação da nossa esquerda: a gestão da miséria. Há uma obsessão quase mística em nivelar por baixo, um fetiche pelo igualitarismo na pobreza em vez da emancipação na riqueza. Para esta visão do mundo, o cidadão próspero, independente e com iniciativa própria é um perigo público, porque deixa de precisar do Estado-providência para sobreviver. A pobreza não é um problema a resolver, é um eleitorado a manter. Daí a necessidade vital de conservar o povo num estado de dependência económica constante, alimentado a subsídios e regulamentações asfixiantes, enquanto se agitam as bandeiras vermelhas ao som do eterno “a luta continua”. Se a luta acabar e o povo enriquecer, quem é que vai para a rua gritar os slogans?

E depois temos a grande instituição nacional: a greve preventiva por tudo e por nada. O país assiste, entre a resignação e o enfado, a paralisações de transportes, serviços públicos e escolas. O argumento é sempre a “luta contra a austeridade encapotada” e a “defesa dos direitos”. Bloqueia-se a vida de quem acorda às seis da manhã para ir trabalhar, tudo em nome de uma pureza laboral que só existe nos gabinetes climatizados de São Bento.

O mais fascinante em toda esta encenação não é o barulho de agora; é o silêncio de outrora.

Diz a mitologia política que a coerência é uma virtude, mas a memória da nossa esquerda parece sofrer de uma amnésia altamente seletiva. Vale a pena recordar os áureos tempos

da “Geringonça”. Durante aqueles anos de idílio parlamentar, em que o poder foi partilhado à esquerda, o país viveu uma espécie de anestesia sindical coletiva. As leis laborais da Troika — as mesmíssimas que hoje dizem ser o cancro do país — continuaram em vigor, intocadas, assinadas e carimbadas. E quantas greves gerais ou paralisações de cariz apocalíptico vimos nessa altura para exigir a sua revogação imediata? Zero. Nenhuma. O país parecia ter entrado num estado de nirvana laboral onde os salários eram baixos e a precariedade continuava a existir, mas como o Governo tinha a aprovação da esquerda, as faixas e os altifalantes ficaram guardados no armazém.

Descobre-se assim a grande verdade: para os sindicatos e partidos que agora gritam nas ruas, os direitos dos trabalhadores não dependem do que está na lei, mas sim de quem se senta na cadeira do poder. Quando a esquerda governa, a precariedade é uma “contingência macroeconómica inevitável”; quando a esquerda está na oposição, a mesmíssima precariedade passa a ser “terrorismo patronal”.

Está na altura de limpar a areia dos olhos. O pacote laboral não é perfeito — nenhuma lei o é —, mas procura responder à economia digital, à conciliação familiar e à necessidade de pôr as empresas a competir num mundo global. Já a ladainha esquerdista não quer proteger o trabalhador; quer apenas manter o monopólio da indignação e o rebanho bem controlado. É pena que, para manter esse monopólio, continuem a preferir paralisar o país a deixá-lo andar para a frente.