O que estamos realmente a perseguir?
Tudo o que tem significado continua a precisar de tempo
“Uau! Que corpo incrível! Também quero ser assim!”
Ouço isto desde que comecei a namorar com o meu marido, mas de há um ano para cá a frequência aumentou significativamente. Ele já era parado na rua. Agora é muito mais.
Nos Estados Unidos pedem-lhe fotografias. Na Europa são mais contidos. E nem sequer estou a falar do contexto das competições. Acontece em aeroportos, centros comerciais ou simplesmente enquanto caminha na rua. Pessoas comuns, homens e mulheres, aproximam-se, elogiam o físico e fazem quase sempre a mesma pergunta:
“O que é que faz para ter esse corpo?”
Curiosamente, as perguntas que raramente surgem são:
“Quanto tempo demorou?”
“Qual é o processo?”
A pressão pelo corpo perfeito nunca foi tão grande. Multiplicam-se os influencers que vendem corpos e vidas aparentemente perfeitas. Vendem fórmulas mágicas, atalhos perigosos - alguns matam em doses homeopáticas, outros são fulminantes - a ilusão de que tudo pode ser conquistado rapidamente.
Vivemos tempos velozes. Queremos perder em semanas os quilos acumulados durante anos. Queremos ganhar massa muscular antes das férias. Queremos apagar décadas de sedentarismo com programas intensivos ou com recurso a soluções milagrosas.
Queremos chegar sem fazer a viagem.
Há dias ouvi um homem afirmar, com absoluta convicção, que a maioria dos homens prefere uma mulher mais jovem, bonita e com um corpo definido. E que só não o admitem por receio dos julgamentos.
A afirmação ficou comigo. Não por causa dos homens. Por causa de todos nós.
Levou-me a pensar no valor que atribuímos à aparência física e ao lugar que ela ocupa nas nossas escolhas. E não é só junto dos mais jovens.
A evidência científica mostra que a atratividade física influencia a atração inicial. Mas também mostra que, nas relações duradouras, entram em jogo fatores muito mais complexos: valores, personalidade, confiança, compatibilidade emocional e projeto de vida.
Porque uma coisa é aquilo que capta a atenção. Outra, muito diferente, é aquilo que nos faz ficar.
E pergunto-me:
Será que estamos a transformar pessoas em montras?
Será que estamos a reduzir a complexidade extraordinária de um ser humano àquilo que vemos à superfície?
Será que um corpo passou a valer mais do que o caráter, a lealdade, a inteligência ou a capacidade de amar?
Quando alimentamos a indústria da perfeição impossível, não estaremos a desumanizar a própria humanidade?
O corpo envelhece. As formas transformam-se. E, no entanto, parecemos determinados a travar uma guerra contra aquilo que é inevitável.
Queremos relações construídas sobre valores ou sobre prazos de validade?
Queremos pessoas inteiras ou versões humanas de um catálogo, constantemente avaliadas e comparadas?
Tenho a convicção de que não estamos mais exigentes. Estamos apenas a confundir valor com aparência.
E se, em vez de perseguirmos um corpo, estivermos apenas a fugir de uma sensação? Do medo de deixar de ser desejados? Do medo de perder valor? Do medo de sermos substituídos?
Vale a pena perguntar porque é que algumas pessoas passam tanto tempo a colecionar imagens de corpos que desejam e vidas que idealizam. O que estão realmente a procurar? Um corpo? Ou uma sensação que acreditam que esse corpo representa?
Voltando ao início, as pessoas olham para o resultado. Raramente olham para a história.
O que veem hoje é um corpo trabalhado.
O que não veem são mais de trinta anos de treino. Não veem o atleta que passou pelo futebol, pela natação e que encontrou na musculação uma paixão para a vida. Não veem os milhares de horas acumuladas em treinos, muitas vezes em condições longe das ideais. Não veem a disciplina dos dias em que apetece menos treinar e, ainda assim, se treina.
Veem o resultado. Não veem as escolhas.
E é precisamente aqui que esta conversa devia começar.
Porque o corpo é apenas a consequência visível.
A musculação merece uma reflexão diferente. Não como instrumento de validação externa, mas como um compromisso com a saúde, a autonomia e a qualidade de vida.
Com o passar dos anos perdemos naturalmente massa muscular, força, equilíbrio e independência. O treino de força ajuda a travar esse processo.
Desenganem-se, o verdadeiro corpo de sonho não é aquele que arranca elogios na rua. É o que continua a servir-nos quando a juventude deixa de poder fazê-lo.
E o problema não é querermos tudo.
É querermos tudo sem aceitar o preço que cada escolha exige.
Num tempo que nos vende atalhos, vale a pena recordar uma verdade simples: as coisas com significado continuam a precisar de tempo.
Porque aquilo que verdadeiramente nos sustenta ao longo da vida nunca foi a perfeição.
Foram as escolhas. Foi aquilo que construímos, um dia de cada vez.