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Associação Portuguesa de Escritores celebra centenário de Luís de Sttau Monteiro

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Foto arquivo/RTP

A Associação Portuguesa de Escritores (APE) vai assinalar o centenário do nascimento do romancista, dramaturgo e jornalista Luís de Sttau Monteiro com um almoço-tertúlia, em Lisboa, dedicado "à figura do notável escritor", criador das "Redações da Guidinha".

A homenagem, coordenada por Luís Machado, da APE, realiza-se no próximo dia 16, no Café Império, em Lisboa, num encontro em que serão abordadas "a vida e a obra do humanista que muito lutou pela defesa dos valores elementares da Liberdade e dos Direitos Humanos", segundo o comunicado da APE hoje divulgado.

A homenagem conta com a participação de Ana Marques Pereira, escritora, autora de "Luís de Sttau Monteiro Gastrónomo" (prémio da Literatura Gastronómica de França, em 2023), Domingos Lobo, dramaturgo e programador cultural, José Manuel Mendes, presidente da APE, da professora universitária Maria João Brilhante, investigadora do Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e do ator Rui Mendes.

Luís de Sttau Monteiro, que nasceu em Lisboa em 03 de abril de 1926, filho do embaixador de Portugal em Londres (1936-1943) Armindo Monteiro, viveu grande parte da adolescência no Reino Unido, incluindo os anos da II Guerra Mundial.

Licenciado em Direito, estreou-se como escritor em 1960, com a novela "Um Homem Não Chora", assumindo desde logo lugar de destaque nas letras portuguesas, confirmado no ano seguinte com o romance "Angústia para o Jantar", obra em que se "denunciam impiedosamente certos preconceitos e ilusões dominantes", no Portugal da época, como descreveu o professor Óscar Lopes, citado pela Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), na página dedicada ao escritor.

Luís de Sttau Monteiro manteve a escrita narrativa com obras como "E Se For Rapariga Chama-se Custódia" (1966) e "Agarra o Verão, Guida, Agarra o Verão", na base da telenovela "Chuva na Areia (1984), mas o teatro impôs-se com peças como "Felizmente Há Luar", "na linha do teatro épico brechtiano, distinguida com o prémio da extinta Sociedade de Escritores em 1962 e logo proibida pela censura", recorda a biografia do autor, no 'site' da DGLAB.

"Felizmente Há Luar", ainda segundo a DGLAB, marcou "o início de uma obra não muito extensa mas muito significativa na sua corajosa defesa dos valores humanos essenciais: a liberdade, a dignidade humana, a justiça social". A peça só pôde ser posta em cena depois do 25 de Abril.

"Todos os Anos pela Primavera" (representada em 1963) e "O Barão" (1964), adaptação da novela homónima de Branquinho da Fonseca, sucederam-se na obra dramática de Sttau Monteiro, que teve continuidade com "Auto da Barca do Motor Fora de Borda" (1966), peça polémica em plena ditadura, que os leais ao regime chegaram a considerar "injuriosa", por ousar transpor Gil Vicente para a sociedade contemporânea.

"Não pretendi refazer ou recriar 'O Auto da Barca do Inferno'. Pretendi entendê-lo - homem que sou do meu tempo - no meu tempo", escreveu Sttau Monteiro na contracapa da primeira edição da peça. "Tentar entender uma obra escrita há quatrocentos anos, em termos de utilidade prática e imediata, é respeitar essa obra e homenagear o seu autor", afirmou, acrescentando: "O que eu considero injurioso para com a obra de Gil Vicente não é a minha tentativa de a entender em termos contemporâneos, é a 'necessidade inútil' de justificar essa tentativa".

Em 1967, as peças em um ato "A Guerra Santa" e "A Estátua", "violenta denúncia da ditadura e da guerra colonial", como salienta a DGLAB, levaram Sttau Monteiro à prisão do regime.

Nos anos seguintes, o escritor insistiria na crítica com "As Mãos de Abraão Zacut" (1960) e "Sua Excelência" (1971), a que se juntaria mais tarde, já depois do 25 de Abril, "Crónica Atribulada do Esperançoso Fagundes" (1979), abordagem satírica da História de Portugal, desde a fundação até 1974.

Na imprensa, "onde se distinguiu por uma grande acutilância crítica e um estilo desenvolto de acentuada ironia", segundo a DGLAB, Sttau Monteiro fez parte dos conselhos de redação da revista Almanaque, coordenada pelo escritor José Cardoso Pires, e do suplemento semanal A Mosca, do Diário de Lisboa, para o qual criou a figura da Guidinha, cujas "redações", publicadas na viragem dos anos 1960 para a década seguinte, se traduziram em crónicas de crítica social.

Em democracia, Sttau Monteiro colaborou regularmente com os semanários Se7e, O Jornal e Expresso, entre outros títulos.

Na obra documental, destaca-se "5 de Outubro de 1910" (1975). No campo da gastronomia, que cultivava, assinou os textos introdutórios da "Cozinha Regional Portuguesa", de Maria Odette Cortes Valente.

Para cinema escreveu, com o poeta Alexandre O'Neill, os diálogos de "Pássaros de Asas Cortadas", adaptação da peça de Luiz Francisco Rebello, dirigida por Artur Ramos.

Sttau Monteiro traduziu ainda autores como J.D. Salinger, Miguel de Unamuno, Tennessee Williams e Harold Pinter.

Em 1977, o seu rosto ficou conhecido, pela participação no júri do concurso televisivo "A Visita da Cornélia", de Raul Solnado.

Luís de Sttau Monteiro morreu em Lisboa, em julho de 1993, aos 67 anos.