O santo grande
Há ameixas a crescer nas árvores e não tarda estamos no Santo António. A igreja, que vejo do meu terraço, já ligou as luzes e daqui a um par de semanas há festa no adro. A última vez que vi a procissão tinha 11 anos e o meu irmão andava no grupo de campismo. E foi para vê-lo vestido como se fosse um escuteiro que a minha mãe e a minha tia Teresa me arrastaram caminho abaixo. Também foi o ano em que o santo grande saiu no andor e a festa fez-se ainda maior. A minha mãe até me comprou um vestido novo de propósito, que o dia merecia o gasto.
Foi o mesmo que levei para tirar as fotografias da matrícula do 2º ano do ciclo e ainda sobrou uma que apareceu na mudança de casa. Não mostra como me ficava justo nas ancas, nem as meias brancas de algodão até o joelho, só se vê uma Lina Marta bem penteada, com uma bandolete a afastar o cabelo da cara e um meio sorriso tímido. Acho que é a minha última fotografia antes de entrar na adolescência e de começar a ser difícil encontrar sapatos sem salto para os meus pés. Ou roupa que me servisse sem parecer que a tinha tirado a uma mulher adulta e mãe de família.
Quando me arrastaram para a festa de Santo António nada disso era um problema. Nem sequer eu que, nesse ano, haveria de tirar 4 a Matemática e deixar a família aliviada sobre o meu futuro. A adolescência ia dar um nó cego à ideia de fazer de mim médica, mas também isso era assunto que, de momento, não ocupava a cabeça da dona Celina ou das minhas tias. As atenções estavam naquele rapazinho que nos acenava da procissão, feliz por termos ido vê-lo. E era ainda um Duarte doce, distraído, que subia às árvores e corria pela fazenda, mas não ia demorar muito até trocar tudo por um rebelde com negativas na escola e um chumbo certo ao 9.º ano.
Noutro lugar talvez fosse fatal, mas não com a minha mãe. Por trás dos óculos e do fato de saia e casaco que servia para ir ao médico e para falar com os directores de turma, estava uma mãe dedicada, que virou o mundo ao contrário para pagar explicações de Inglês, de Matemática e a farda do grupo de campismo. E deixou a casa num caos para estar a tempo de o ver, que uma coisa assim só acontece uma vez, ter o filho e o santo grande na mesma procissão. Não sabia ainda que, com o rebelde, havia chegar o primeiro ateu das nossas vidas e que aquele Verão que estava quase a começar seria o último da nossa infância.
As minhas notas a Matemática haviam de decair e, no Verão do ano seguinte, o meu irmão de 15 anos estaria a acordar cedo para ir com o meu pai para as obras. Não sei como se faz agora, mas os meus pais acreditaram que o castigo era acertado. Sem estudos, o futuro seria aquilo: acordar cedo, levar o almoço embrulhado no jornal, saltar para a carroçaria de uma furgoneta e trabalhar ao sol, entre sacos e baldes de cimento, num ambiente duro. E voltar a fazer o mesmo no dia seguinte.
Lembro-me de ouvir uma vizinha escandalizada, que assim não voltava para a escola, que ia gostar de ter dinheiro, mas a dona Celina não cedeu e o meu irmão foi repetir o ano. Nunca mais chumbou e, a meio do secundário, descobriu a filosofia, depois a literatura e teve poemas publicados em suplementos de jornais. Quando saiu da tropa fez-se jornalista e encheu de orgulho a minha mãe, que nunca desistiu dele, nem mesmo quando o castigou com o trabalho nas obras aos 15 anos. E mostrava as reportagens às visitas, às mulheres dos bordados, tão vaidosa do seu menino como naquele dia que me arrastou para ver a procissão em que o santo grande saiu à rua.