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Fact Check Madeira

Todos os treinadores dizem 'sim' ao Marítimo quando convidados?

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Foto Rui Silva

A principal equipa de futebol do Marítimo garantiu, no Dia do Trabalhador – 1º de Maio, o título de campeão da Liga Portugal 2. No fim-de-semana anterior já havia assegurado a subida à Liga 1. Neste contexto, apesar do sucesso, não está garantida a continuidade de Miguel Moita como treinador na próxima temporada. Este é um facto, ainda que as declarações do técnico, após o jogo de sexta-feira, tenham sido interpretadas como de abertura à permanência.

O treinador celebrou com intensidade a conquista, destacando o regresso à Primeira Liga como um feito colectivo e um objectivo central cumprido, mesmo tendo assumido a equipa a meio da época. Sublinhou a sua crença no grupo e o impacto do seu trabalho ao reforçar a consistência e a identidade da equipa. Contudo, foi no olhar para o futuro que deixou sinais de possível continuidade, ao afirmar que a equipa “tem qualidade para crescer ainda mais”, que existem “bases sólidas para encarar a próxima época com ambição” e que “há um caminho que pode e deve ter continuidade”, expressões que indiciam alinhamento com o projecto e abertura para prosseguir à frente da equipa.

Neste contexto e na possibilidade de o Marítimo ter de ou pretender escolher outro treinador, um leitor, em comentário no Facebook do dnoticias.pt, afirmou que não há treinador que diga não ao clube madeirense, talvez à excepção de Mourinho. Ainda que as palavras possam ter sido ditas com algum exagero e até eventual ironia, corresponderão à verdade dos factos? É o que vamos tentar confirmar.

A verificação da veracidade da afirmação foi feita com recurso a notícias publicadas na imprensa regional, em especial no DIÁRIO, e nacional sobre processos de escolha de treinadores para o Marítimo, em diferentes momentos temporais. O objectivo foi identificar situações em que o clube tenha manifestado interesse num técnico e perceber se esse interesse se traduziu ou não na sua contratação.

Uma primeira nota resulta da própria forma como estes processos são relatados na comunicação social. Nem sempre existe uma formulação directa de “convite recusado”. Muitas vezes, surgem expressões como “não houve acordo”, “não assinou”, “condicionou a decisão” ou “acabou por não vir”. Isso obriga a uma leitura mais atenta do contexto de cada caso.

Regressemos, então, a exemplos concretos.

Em janeiro de 1997, o nome de Mário Reis surge associado ao comando técnico do Marítimo, num processo que chegou a estar bastante avançado. O treinador tinha resolvido a sua situação com o Vitória de Setúbal e tudo apontava para a sua mudança para a Madeira. No entanto, a contratação não se concretizou. A explicação foi dada pelo próprio técnico, que invocou motivos pessoais, relacionados com um problema de saúde da esposa, para não assumir o cargo, tendo mesmo “declinado o convite do Marítimo”.

Neste caso, estamos perante uma situação clara, em que existiu abordagem do clube e decisão do treinador de não avançar.

Avançando no tempo, identificados na imprensa desportiva regional e nacional, há os casos como os de Oswaldo de Oliveira, em 2005, e de Laszlo Bölöni, em 2007, ambos associados a recusas de propostas do Marítimo, optando por outros projectos profissionais.

Ainda em 2007, Abel Braga foi apontado como possível treinador do Marítimo e admitiu disponibilidade para assumir o cargo. No entanto, essa disponibilidade ficou dependente de um conjunto de condições, nomeadamente de natureza financeira e estrutural. Como essas condições não se verificaram, o treinador acabou por não assinar contrato com o clube.

Aqui, a linguagem é diferente, mas o resultado é o mesmo, o treinador não aceita treinar o Marítimo nas condições apresentadas.

Avançando até anos mais recentes, já em 2023, o processo de escolha de treinador voltou a evidenciar a mesma realidade. Sérgio Vieira foi identificado como prioridade para assumir a equipa, mas acabou por não ser contratado. Como o DIÁRIO explicou, o Santa Clara apresentou condições contratuais que o Marítimo não conseguiu acompanhar.

Neste caso, não há uma recusa expressa, mas há uma opção clara por uma alternativa considerada mais vantajosa.

Como se verifica, ao longo do tempo, surgem diferentes tipos de situações, recusas explícitas, decisões condicionadas por factores pessoais ou financeiros e escolhas por propostas concorrentes. Em todos esses cenários, há um elemento comum, que é o facto de o treinador não aceitar treinar o Marítimo.

Pelo exposto, não é possível sustentar a ideia de que todos os treinadores dizem ‘sim’ ao Marítimo quando convidados. Ainda que o clube tenha dimensão, história e atractivo, agora acrescido com o regresso à principal liga de futebol portuguesa, existem vários casos documentados em que técnicos optaram por não assumir o comando da equipa. Assim, a afirmação do leitor é avaliada como falsa.

“Quero (saber) qual é o treinador que diz não ao Marítimo… só o Mourinho…” – A. Fernandes, comentário no facebook do dnoticias.pt