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Madeira

António Trindade recorda fome, partidas e cosmopolitismo da Madeira para explicar fenómeno migratório

Chairman do Grupo PortoBay falou no TEDxMadeira Salon sobre a ligação histórica da Região ao mar e às migrações

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António Trindade levou esta sexta-feira ao TEDxMadeira Salon uma reflexão profundamente marcada pela memória histórica da Madeira, defendendo que a emigração faz parte da própria construção social, económica e cultural da Região.

Na intervenção intitulada “Migrações: Respeito e Desenvolvimento”, o chairman do Grupo PortoBay traçou paralelos entre as vagas migratórias do passado e os fenómenos actuais, lembrando que a realidade vivida pelos madeirenses ao longo do século XX pouco tem a ver com os movimentos migratórios contemporâneos.

“Os que são menos jovens lembram-se bem do que eram os surtos de emigração do tempo do ‘Adeus, até ao meu regresso’. Muitas vezes nem se sabia se haveria regresso”, afirmou.

O empresário revelou que o tema lhe toca também no plano pessoal, lembrando que tem actualmente um neto emigrado em Espanha, numa demonstração de que a mobilidade continua presente nas famílias madeirenses, ainda que em moldes muito diferentes dos do passado.

Ao longo da talk, António Trindade utilizou várias imagens históricas para contextualizar a relação da Madeira com o mar, defendendo que, ao contrário da ideia frequentemente transmitida por quem vive no continente, o mar nunca foi um isolamento para os madeirenses.

“O mar para nós é a ligação ao mundo”, sublinhou.

A partir dessa ideia, recordou as grandes vagas migratórias associadas à pesca do alto mar, às refinarias da Shell em Curaçao ou às rotas marítimas internacionais que recrutavam jovens madeirenses habituados à pesca em águas profundas.

Num registo marcado também pelo humor, relatou uma expressão repetida entre antigos emigrantes ligados à pesca: “Tinham dois compromissos. Ir trabalhar e preservar a espécie”. Segundo contou, muitos casavam e deixavam filhos antes de partir para garantir continuidade familiar.

António Trindade evocou ainda o Porto do Mar e várias zonas costeiras da Madeira como espaços profundamente marcados pela emigração e pelo dinheiro enviado pelos madeirenses espalhados pelo mundo. Recordou, por exemplo, que certas localidades chegaram a ter dos maiores índices de frigoríficos ou automóveis por habitante graças ao dinheiro vindo da América.

O chairman do Grupo PortoBay dedicou também parte significativa da intervenção ao papel histórico do porto do Funchal como ponto estratégico das rotas atlânticas.

Nos anos 30 e 40, lembrou, o Funchal recebia diariamente dezenas de navios e transformava-se numa cidade cosmopolita, numa época em que muitos passageiros vindos de África do Sul faziam escala na Madeira para uma espécie de transição cultural entre África e Europa.

“Já chegámos à Madeira” era, segundo explicou, uma expressão carregada de significado emocional para quem vinha das colónias ou partia em direcção a novos mundos.

Apesar desse ambiente cosmopolita, António Trindade recordou também a dureza social da Madeira de outros tempos, marcada pela pobreza, fome e elevadas taxas de analfabetismo.

Mostrou inclusivamente uma fotografia antiga da estrada da Pontinha repleta de homens à espera de embarque para trabalhos no estrangeiro.

“Vivía-se muito dificilmente e por isso havia esta necessidade de emigrar”, afirmou.

A intervenção integrou o TEDxMadeira Salon que decorre esta sexta-feira nas Adegas da Madeira Wine Company, no Funchal, dedicado ao tema das migrações.